Poesias Completas
Capítulo IV
Traz o escravo o seu cavallo
Que o velho sogro lhe deu;
Traz-lhe mais a sua lança
Que tanto peito abateu.
Então, recobrando a alma,
Que o remorso esmoreceu,
Com esta dura palavra
Á esposa lhe respondeu:
«—A bocayuva trez vezes
No tronco amadureceu, [17]
Desde o dia em que o guerreiro
Sua esposa recebeu.»
«Trez vezes! Amor sobejo
Nossa vida toda encheu.
Fastio me entrou no seio,
Fastio que me perdeu.»
E pulando no cavallo,
Sumiu-se... desapareceu...
Pobre moça sem marido,
Chora o amor que lhe morreu!
IV
Leva o Paraguay as aguas,
Leva-as no mesmo correr,
E as aves descem ao campo
Como usavam de descer.
Tenras flôres, que outro tempo
Costumavam de nascer,
Nascem; vivem de egual vida;
Morrem do mesmo morrer.
Niani, pobre viuva,
Viuva sem bem o ser,
Tanta lagrima chorada
Já te não pode valer.
Olhos que amor desmaiára
De um desmaiar que é viver,
O choro empana-os agora,
Como que vão fenecer.
Corpo que fôra robusto
No seu cavallo a correr,
De continua dor quebrado
Mal se póde já suster.
Collar de prata não usa,
Como usava de trazer;
Pulseiras de finas contas
Todas as veiu a romper.[18]
Que ella, se nada ha mudado
Daquelle eterno viver,
Com que a natureza sabe
Renascer, permanecer,
Toda é outra; a alma lhe morre,
Mas de um continuo morrer,
E não ha magua mais triste
De quantas podem doer.
Os que out'rora a desejavam,
Antes della mal haver,
Vendo que chora e padece,
Rindo se põem a dizer:
«—Remador vai na canoa,
Canoa vae a descer...