Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 93 de 161

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Poesias Completas

Capítulo IV

Traz o escravo o seu cavallo

Que o velho sogro lhe deu;

Traz-lhe mais a sua lança

Que tanto peito abateu.

Então, recobrando a alma,

Que o remorso esmoreceu,

Com esta dura palavra

Á esposa lhe respondeu:

«—A bocayuva trez vezes

No tronco amadureceu, [17]

Desde o dia em que o guerreiro

Sua esposa recebeu.»

«Trez vezes! Amor sobejo

Nossa vida toda encheu.

Fastio me entrou no seio,

Fastio que me perdeu.»

E pulando no cavallo,

Sumiu-se... desapareceu...

Pobre moça sem marido,

Chora o amor que lhe morreu!

IV

Leva o Paraguay as aguas,

Leva-as no mesmo correr,

E as aves descem ao campo

Como usavam de descer.

Tenras flôres, que outro tempo

Costumavam de nascer,

Nascem; vivem de egual vida;

Morrem do mesmo morrer.

Niani, pobre viuva,

Viuva sem bem o ser,

Tanta lagrima chorada

Já te não pode valer.

Olhos que amor desmaiára

De um desmaiar que é viver,

O choro empana-os agora,

Como que vão fenecer.

Corpo que fôra robusto

No seu cavallo a correr,

De continua dor quebrado

Mal se póde já suster.

Collar de prata não usa,

Como usava de trazer;

Pulseiras de finas contas

Todas as veiu a romper.[18]

Que ella, se nada ha mudado

Daquelle eterno viver,

Com que a natureza sabe

Renascer, permanecer,

Toda é outra; a alma lhe morre,

Mas de um continuo morrer,

E não ha magua mais triste

De quantas podem doer.

Os que out'rora a desejavam,

Antes della mal haver,

Vendo que chora e padece,

Rindo se põem a dizer:

«—Remador vai na canoa,

Canoa vae a descer...