Poesias Completas
A Flor do Embiroçu
Nem somente o labor, mas o perigo, a
fome,
O frio, a descalcez,
O morrer cada dia uma morte sem nome,
O morrel-a, talvez,
Entre barbaras mãos, como se fora
crime,
Como se fora réu
Quem lhe ensinára aquela ação pura e
sublime
De as levantar ao céu!
Ó Paulos do sertão! Que dia e que
batalha!
Vencestel-a; e podeis
Entre as dobras dormir da secular
mortalha;
Vivereis, vivereis!
A FLOR DO EMBIROÇU
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
FIL. ELIS.
Quando a noturna sombra envolve a
terra
E á paz convida o lavrador cansado,
Á fresca brisa o seio delicado
A branca flôr do embiroçú descerra.
E das limpidas lagrimas que chora
A noite amiga, ella recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.
Então, á luz nascente, a flôr modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o somno quando tudo é festa.
Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a aza impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!
Tambem ella ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ella da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio ás ilusões viçosas.
É tudo seu,—tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de
estrellas;
Abrazada de amor, palpita ao vel-as,
E a todas cinge no ideal abraço.
O rosto não encara indifferente,
Nem a traidora mão candida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.
Noite, melhor que o dia, quem não te
ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua aza amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a
chama.
Ama-te a flôr que desabrocha á hora
Em que o ultimo olhar o sol lhe estende,