Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 121 de 161

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Poesias Completas

A Flor do Embiroçu

Nem somente o labor, mas o perigo, a

fome,

O frio, a descalcez,

O morrer cada dia uma morte sem nome,

O morrel-a, talvez,

Entre barbaras mãos, como se fora

crime,

Como se fora réu

Quem lhe ensinára aquela ação pura e

sublime

De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que

batalha!

Vencestel-a; e podeis

Entre as dobras dormir da secular

mortalha;

Vivereis, vivereis!

 

A FLOR DO EMBIROÇU

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?

FIL. ELIS.

Quando a noturna sombra envolve a

terra

E á paz convida o lavrador cansado,

Á fresca brisa o seio delicado

A branca flôr do embiroçú descerra.

E das limpidas lagrimas que chora

A noite amiga, ella recolhe alguma;

A vida bebe na ligeira bruma,

Até que rompe no horizonte a aurora.

Então, á luz nascente, a flôr modesta,

Quando tudo o que vive alma recobra,

Languidamente as suas folhas dobra,

E busca o somno quando tudo é festa.

Suave imagem da alma que suspira

E odeia a turba vã! da alma que sente

Agitar-se-lhe a aza impaciente

E a novos mundos transportar-se aspira!

Tambem ella ama as horas silenciosas,

E quando a vida as lutas interrompe,

Ella da carne os duros elos rompe,

E entrega o seio ás ilusões viçosas.

É tudo seu,—tempo, fortuna, espaço,

E o céu azul e os seus milhões de

estrellas;

Abrazada de amor, palpita ao vel-as,

E a todas cinge no ideal abraço.

O rosto não encara indifferente,

Nem a traidora mão candida aperta;

Das mentiras da vida se liberta

E entra no mundo que jamais não mente.

Noite, melhor que o dia, quem não te

ama?

Labor ingrato, agitação, fadiga,

Tudo faz esquecer tua aza amiga

Que a alma nos leva onde a ventura a

chama.

Ama-te a flôr que desabrocha á hora

Em que o ultimo olhar o sol lhe estende,