Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 28 de 161

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Poesias Completas

Noivado

Sê minha amante, os beijos meus

recebe,

Acolhe-me em teu seio!

Já cançada de encher languidas flôres

Com as lagrimas frias,

A noite vê surgir do oriente a aurora

Dourando as serranias.

Azas batendo á luz que as trevas rompe,

Piam nocturnas aves,

E a floresta interrompe alegremente

Os seus silencios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria

Melancolica chora;

Rompe estas sombras que o meu ser

povoam;

Musa, sê tu a aurora!

 

NOIVADO

Vês, querida, o horizonte ardendo em

chammas?

Além d'esses outeiros

Vai descambando o sol, e á terra envia

Os raios derradeiros;

A tarde, como noiva que enrubece,

Traz no rosto um véu molle e

transparente;

No fundo azul a estrella do poente

Já timida apparece.

Como um bafo suavissimo da noite,

Vem sussurrando o vento

As arvores agita e imprime ás folhas

O beijo somnolento.

A flôr ageita o calix: cedo espera

O orvalho, e emtanto exhala o doce

aroma;

Do leito do oriente a noite assoma

Como uma sombra austera.

Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,

Vem, minha flôr querida;

Vem contemplar o céu, pagina santa

Que amor a ler convida;

Da tua solidão rompe as cadeias;

Desce do teu sombrio e mudo asylo;

Encontrarás aqui o amor tranquillo.....

Que esperas? que receias?

Olha o templo de Deus, pomposo e

grande;

Lá do horizonte opposto

A lua, como lampada, já surge

A alumiar teu rosto;

Os cirios vão arder no altar sagrado,

Estrellinhas do céu que um anjo acende;

Olha como de balsamos rescende

A c'rôa do noivado.

Irão buscar-te em meio do caminho

As minhas esperanças;

E voltarão comtigo, entrelaçadas

Nas tuas longas tranças;

No emtanto eu preparei teu leito á

sombra

Do limoeiro em flôr; colhi contente

Folhas com que alastrei o solo ardente

De verde e molle alfombra.

Pelas ondas do tempo arrebatados,