Poesias Completas
Noivado
Sê minha amante, os beijos meus
recebe,
Acolhe-me em teu seio!
Já cançada de encher languidas flôres
Com as lagrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.
Azas batendo á luz que as trevas rompe,
Piam nocturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silencios graves.
Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancolica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser
povoam;
Musa, sê tu a aurora!
NOIVADO
Vês, querida, o horizonte ardendo em
chammas?
Além d'esses outeiros
Vai descambando o sol, e á terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubece,
Traz no rosto um véu molle e
transparente;
No fundo azul a estrella do poente
Já timida apparece.
Como um bafo suavissimo da noite,
Vem sussurrando o vento
As arvores agita e imprime ás folhas
O beijo somnolento.
A flôr ageita o calix: cedo espera
O orvalho, e emtanto exhala o doce
aroma;
Do leito do oriente a noite assoma
Como uma sombra austera.
Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flôr querida;
Vem contemplar o céu, pagina santa
Que amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desce do teu sombrio e mudo asylo;
Encontrarás aqui o amor tranquillo.....
Que esperas? que receias?
Olha o templo de Deus, pomposo e
grande;
Lá do horizonte opposto
A lua, como lampada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os cirios vão arder no altar sagrado,
Estrellinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de balsamos rescende
A c'rôa do noivado.
Irão buscar-te em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão comtigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No emtanto eu preparei teu leito á
sombra
Do limoeiro em flôr; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e molle alfombra.
Pelas ondas do tempo arrebatados,