Poesias Completas
Capítulo IX
Entra desatinada o bosque antigo,
E a dor expande em lobregos soluços,
Co'o doce nome accorda ao longe os
écos,
Farta de amor e prodiga de vida,
Ouve-as a selva, e não lhe entende as
maguas.
Outras vezes pisando a ruiva areia
Das praias, ou galgando a penedia
Cujos pés orla o mar de nivea espuma,
As ondas murmurantes interroga;
Conta ao vento da noite as dores suas;
Mas... fieis ao destino e á lei que as rege, As preguiçosas ondas vão caminho,
Crespas do vento que sussurra e passa.
IX
Quando, ao sol da manhã, partem ás
vezes,
Com seus arcos, os destros caçadores,
E alguns da rija estaca desatando
Os nós de embira ás rapidas igaras,
A pesca vão pelas ribeiras proximas,
Das esposas, das mães que os lares
velam,
Grata alegria os corações innunda,
Menos o della, que suspira e geme,
E não aguarda doce esposo ou filho.
Triste os vê na partida e no regresso,
E nessa melancholica postura,
Simelha a acacia langue e esmorecida,
Que já de orvalho ou sol não pede os
beijos.
As outras...—Raro em labios de felizes
Alheias maguas travam. Não se pejam
De seus olhos azuis e alegres pennas
Os sahis sobre as arvores pousados,
Se ao perto voa na campina verde
De anuns luctuoso bando; nem os trillos
Das andorinhas interrompe a nota
Que a jurity suspira.—As outras folgam
Pelo arraial dispersas; vão-se á terra
Arrancar as raizes nutritivas,
E fazem os preparos do banquete
A que hão de vir mais tarde os
destemidos
Senhores do arco, alegres vencedores
De quanto vive na agua e na floresta.
Da captiva nenhuma inquire as maguas.
Comtudo, algumas vezes, curiosas
Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:
—«Pois que á taba voltaste, em que teus
olhos
Primeiro viram luz, que magua funda
Lhes distilla tão longo e amargo pranto,
Amargo mais do que esse que não busca Recatado silencio?»—E ás doces vozes
A christã desterrada assim responde:
—«Potyra é como aquella flôr que chora
Lagrimas de alvo leite, se do galho
Mão cruel a cortou. Oh! não permitta
O céu que ímpia fortuna vos separe
Daquelle que escolherdes. Dor é essa
Maior que um pobre coração de esposa.
Esperanças... Deixei-as nessas aguas
Que me trouxeram, complices do crime,
Á taba de Tupan, não allumiada
Da palavra celeste. Algumas vezes,
Raras, alveja em minha noite escura
Não sei que tibia aurora, e penso: Acaso
O sol que vem me guarda um raio amigo, Que hade accender nestes cansados
olhos