Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 82 de 161

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Poesias Completas

Capítulo IX

Entra desatinada o bosque antigo,

E a dor expande em lobregos soluços,

Co'o doce nome accorda ao longe os

écos,

Farta de amor e prodiga de vida,

Ouve-as a selva, e não lhe entende as

maguas.

Outras vezes pisando a ruiva areia

Das praias, ou galgando a penedia

Cujos pés orla o mar de nivea espuma,

As ondas murmurantes interroga;

Conta ao vento da noite as dores suas;

Mas... fieis ao destino e á lei que as rege, As preguiçosas ondas vão caminho,

Crespas do vento que sussurra e passa.

IX

Quando, ao sol da manhã, partem ás

vezes,

Com seus arcos, os destros caçadores,

E alguns da rija estaca desatando

Os nós de embira ás rapidas igaras,

A pesca vão pelas ribeiras proximas,

Das esposas, das mães que os lares

velam,

Grata alegria os corações innunda,

Menos o della, que suspira e geme,

E não aguarda doce esposo ou filho.

Triste os vê na partida e no regresso,

E nessa melancholica postura,

Simelha a acacia langue e esmorecida,

Que já de orvalho ou sol não pede os

beijos.

As outras...—Raro em labios de felizes

Alheias maguas travam. Não se pejam

De seus olhos azuis e alegres pennas

Os sahis sobre as arvores pousados,

Se ao perto voa na campina verde

De anuns luctuoso bando; nem os trillos

Das andorinhas interrompe a nota

Que a jurity suspira.—As outras folgam

Pelo arraial dispersas; vão-se á terra

Arrancar as raizes nutritivas,

E fazem os preparos do banquete

A que hão de vir mais tarde os

destemidos

Senhores do arco, alegres vencedores

De quanto vive na agua e na floresta.

Da captiva nenhuma inquire as maguas.

Comtudo, algumas vezes, curiosas

Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:

—«Pois que á taba voltaste, em que teus

olhos

Primeiro viram luz, que magua funda

Lhes distilla tão longo e amargo pranto,

Amargo mais do que esse que não busca Recatado silencio?»—E ás doces vozes

A christã desterrada assim responde:

—«Potyra é como aquella flôr que chora

Lagrimas de alvo leite, se do galho

Mão cruel a cortou. Oh! não permitta

O céu que ímpia fortuna vos separe

Daquelle que escolherdes. Dor é essa

Maior que um pobre coração de esposa.

Esperanças... Deixei-as nessas aguas

Que me trouxeram, complices do crime,

Á taba de Tupan, não allumiada

Da palavra celeste. Algumas vezes,

Raras, alveja em minha noite escura

Não sei que tibia aurora, e penso: Acaso

O sol que vem me guarda um raio amigo, Que hade accender nestes cansados

olhos