Poesias Completas
Capítulo XI
A alegre nova. Vem descendo os montes, Ou abicando ás povoadas praias
Gente da raça illustre. A onda immensa
Pelo arraial se estende pressurosa.
De quantas côres natureza fertil
Tinge as proprias feições, copiam elles
Engraçadas, vistosas louçanias.
Vários na edade são, varios no aspecto,
Todos iguais e irmãos no herdado brio.
Dado o amplexo de amigo,
acompanhado
De suspiros e pesames sinceros
Pelas fadigas da viagem longa,
Rompem ruidosas danças. Ao tamoyo
Deu o Ibake os segredos da poesia;
Cantos festivos, moduladas vozes,
Enchem os ares, celebrando a festa
Do sacrificio proximo. Ah! não cubra
Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos
Destes polidos tempos! Rudes eram
Aquelles homens de asperos costumes,
Que ante o sangue de irmãos folgavam
livres,
E nós, soberbos filhos de outra edade,
Que a voz fallamos da razão severa
E na luz nos banhamos do Calvario,
Que somos nós mais que elles? Raça
triste
De Cains, raça eterna...
XI
Os cantos cessam.
Calou-se o maracá. As roucas vozes
Dos férvidos guerreiros já reclamam
O brutal sacrificio. Ás mãos das servas
A taça do cauim passara exhausta.
Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.
Da nação guayanaz nos rudes campos
Nasceu. Nos campos da saudosa patria
Industriosa mão não sabe ainda
Alevantar as tabas. Cova funda
Da terra, mãe comum, no seio aberta,[11] Os acolhe e protege. O chão lhes forra
A pele do tapir; continua chamma
Lhes suppre a luz do sol. É uso antigo
Do guayanaz que chega a extrema
edade,
Ou de mortal doença accomettido,
Não expirar aos olhos de outros homens; Vivo o guardam no bojo da igaçaba,
E á fria terra o dão, como se fôra
Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes.
Do almo, doce licor que extrai das flôres
Mãe do mel, iramaya, larga cópia
Pelos robustos membros lhe coaram
Seis anciãs da tribu. Rubras pennas
Na vasta fronte e nos nervosos braços
Garridamente o enfeitam. Longa e forte
A mussuranna os rins lhe cinge e aperta. Entra na praça o funebre cortejo.
Olhar tranquillo, inda que fero, espalha
O indomado captivo. Em pé, defronte,
Grave, silencioso, ao sol mostrando
De feias cores e vistosas plumas
Singular harmonia, aguarda a victima
O executor. Nas mãos lhe pende a
enorme
Tagapema enfeitada, arma certeira,
Arma triumphal de morte e de exterminio. Medem-se rosto a rosto os dois
contrarios
C'um sorriso feroz. Confusas vozes
Enchem subito o espaço. Não lhe é dado