Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 84 de 161

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Poesias Completas

Capítulo XI

A alegre nova. Vem descendo os montes, Ou abicando ás povoadas praias

Gente da raça illustre. A onda immensa

Pelo arraial se estende pressurosa.

De quantas côres natureza fertil

Tinge as proprias feições, copiam elles

Engraçadas, vistosas louçanias.

Vários na edade são, varios no aspecto,

Todos iguais e irmãos no herdado brio.

Dado o amplexo de amigo,

acompanhado

De suspiros e pesames sinceros

Pelas fadigas da viagem longa,

Rompem ruidosas danças. Ao tamoyo

Deu o Ibake os segredos da poesia;

Cantos festivos, moduladas vozes,

Enchem os ares, celebrando a festa

Do sacrificio proximo. Ah! não cubra

Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos

Destes polidos tempos! Rudes eram

Aquelles homens de asperos costumes,

Que ante o sangue de irmãos folgavam

livres,

E nós, soberbos filhos de outra edade,

Que a voz fallamos da razão severa

E na luz nos banhamos do Calvario,

Que somos nós mais que elles? Raça

triste

De Cains, raça eterna...

XI

Os cantos cessam.

Calou-se o maracá. As roucas vozes

Dos férvidos guerreiros já reclamam

O brutal sacrificio. Ás mãos das servas

A taça do cauim passara exhausta.

Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.

Da nação guayanaz nos rudes campos

Nasceu. Nos campos da saudosa patria

Industriosa mão não sabe ainda

Alevantar as tabas. Cova funda

Da terra, mãe comum, no seio aberta,[11] Os acolhe e protege. O chão lhes forra

A pele do tapir; continua chamma

Lhes suppre a luz do sol. É uso antigo

Do guayanaz que chega a extrema

edade,

Ou de mortal doença accomettido,

Não expirar aos olhos de outros homens; Vivo o guardam no bojo da igaçaba,

E á fria terra o dão, como se fôra

Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes.

Do almo, doce licor que extrai das flôres

Mãe do mel, iramaya, larga cópia

Pelos robustos membros lhe coaram

Seis anciãs da tribu. Rubras pennas

Na vasta fronte e nos nervosos braços

Garridamente o enfeitam. Longa e forte

A mussuranna os rins lhe cinge e aperta. Entra na praça o funebre cortejo.

Olhar tranquillo, inda que fero, espalha

O indomado captivo. Em pé, defronte,

Grave, silencioso, ao sol mostrando

De feias cores e vistosas plumas

Singular harmonia, aguarda a victima

O executor. Nas mãos lhe pende a

enorme

Tagapema enfeitada, arma certeira,

Arma triumphal de morte e de exterminio. Medem-se rosto a rosto os dois

contrarios

C'um sorriso feroz. Confusas vozes

Enchem subito o espaço. Não lhe é dado