Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 119 de 161

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Poesias Completas

A Gonçalves Dias

a.»

«Assim fallára o pallido Içayba;

Alguns instantes contemplou meu rosto,

Calado e firme. A cachoeira ao longe

Interrompia apenas o silencio;

E eu morto, eu mesmo me sentia morto.

Elle um triste suspiro magoado

Soltou do peito; os apagados olhos

Ás estrellas ergueu, sereno e triste,

E de novo rompendo o voo aos ares,

Como uma frecha penetrou nas nuvens.»

 

A GONÇALVES DIAS

Ninguém virá, com titubeastes passos.

E os olhos lacrimosos, procurando

O meu jazigo...

GONÇALVES DIAS.—Últimos Cantos.

Tu vive e gosa a luz serena e pura.

J. BAZILIO DA GAMA.—Uraguai, c. V.

Assim vagou por alongados climas,

E do naufragio os humidos vestidos

Ao calor enxugou de extranhos lares

O lusitano vate. Acerbas penas

Curtiu naquelas regiões; e o Ganges,

Se o viu chorar, não viu pousar calada,

Como a harpa dos exules profetas,

A heroica tuba. Elle a embocou,

vencendo

Co'a lembrança do ninho seu paterno,

Longas saudades e miserias tantas.

Que monta o padecer? Um só momento

As maguas lhe pagou da vida; a patria

Reviu, apoz a suspirar por ella;

E a velha terra sua

O despojo mortal cobriu piedosa

E de sobejo o compensou de ingratos.

Mas tu, cantor da America, roubado

Tão cedo ao nosso orgulho, não te coube Na terra em que primeiro houveste o

lume

Do nosso sol, achar o ultimo leito!

Não te coube dormir no chão amado,

Onde a luz frouxa da serena lua,

Por noite silenciosa, entre a folhagem

Coasse os raios humidos e frios,

Com que ella chora os mortos...

derradeiras

Lagrimas certas que terá na campa

O infeliz que não deixa sobre a terra

Um coração ao menos que o pranteie.

Vinha contudo o pallido poeta

Os desmaiados olhos estendendo

Pela azul extensão das grandes aguas,

A pesquizar ao longe o esquivo fumo

Dos patrios tectos. Na abatida fronte

Ave da morte as asas lhe roçára;

A vida não cobrou nos ares novos,

A vida, que em vigilias e trabalhos,

Em prol dos seus, gastou por longos

annos,

Co'essa largueza de animo fadado

A entornar generoso a vital seiva.

Mas, que importava a morte, se era doce Morrel-a á sombra deliciosa e amiga

Dos coqueiros da terra, ouvindo acaso

No murmurar dos rios,

Ou nos suspiros do nocturno vento,

Um eco melancholico dos cantos

Que elle outrora entoára? Traz do exilio

Um livro, monumento derradeiro

Que á patria levantou; alli revive

Toda a memoria do valente povo

Dos seus Tymbiras...

Subito, nas ondas

Bate os pés, espumante e desabrido,

O corcel da tormenta; o horror da morte

Enfia o rosto aos nautas... Quem por elle, Um momento hesitou quando na fragil

Tabua confiou a unica esperança

Da existencia? Mysterio obscuro é esse

Que o mar não revellou. Ali sosinho,

Travou naquella solidão das aguas

O duello tremendo, em que a alma e

corpo

As suas forças ultimas despendem

Pela vida da terra e pela vida

Da eternidade. Quanta imagem torva,

Pelo turbado espirito batendo

As fuscas azas, lhe tornou mais triste

Aquelle instante funebre! Suave

É o arranco final, quando o já frouxo

Olhar contempla as lagrimas do affecto,

E a cabeça repousa em seio amigo.

Nem affectos nem prantos; mas somente

A noite, o medo, a solidão e a morte.

A alma que alli morava, ingenua e meiga, Naquele corpo exiguo, abandonou-o,

Sem ouvir os soluços da tristeza,

Nem o grave salmear que fecha aos

mortos

O frio chão. Ella o deixou, bem como

Hospede mal acceito e mal dormido,

Que prossegue a jornada, sem que leve

O osculo da partida, sem que deixe

No rosto dos que ficam,—rara embora,— Uma sombra de pallida saudade.

Oh! sobre a terra em que pousaste um

dia,

Alma filha de Deus, ficou teu rasto

Como de estrella que perpétua fulge!

Não viste as nossas lagrimas; comtudo

O coração da patria as ha vertido.

Tua gloria as seccou, bem como orvalho

Que a noite amiga derramou nas flôres

E o raio enxuga da nascente aurora.

Na mansão a que foste, em que ora

vives,

Has de escutar um eco do concerto

Das vozes nossas. Ouvirás, entre ellas,

Talvez, em labios de indiana virgem!

Esta saudosa e suspirada nenia:

«Morto! é morto o cantor dos meus

guerreiros!

Virgens da matta, suspirai commigo!»

«A grande agua o levou como invejosa.

Nenhum pé trilhará seu derradeiro

Funebre leito; elle repousa eterno

Em sítio onde nem olhos de valentes,

Nem mãos de virgens poderão tocar-lhe

Os frios restos. Sabiá da praia

De longe o chamará saudoso e meigo,

Sem que ele venha repetir-lhe o canto.

Morto! é morto o cantor de meus

guerreiros!

Virgens da matta, suspirai comigo!»

Ele houvera do Ybake o dom supremo

De modular nas vozes a ternura,

A colera, o valor, tristeza e magua,

E repetir aos namorados ecos

Quanto vive e reluz no pensamento.

Sobre a margem das aguas escondidas,

Virgem nenhuma suspirou mais terna,

Nem mais válida a voz ergueu na taba,

Suas nobres acções cantando aos

ventos,

O guerreiro tamoyo. Doce e forte,

Brotava-lhe do peito a alma divina.

Morto! é morto o cantor dos meus

guerreiros!

Virgens da matta, suspirai comigo!

«Coema, a doce amada de Itajuba,

Coema não morreu; a folha ágreste

Póde em ramas ornar-lhe a sepultura,

E triste o vento suspirar-lhe em torno;

Ella perdura a virgem dos Tymbiras,

Ella vive entre nós. Airosa e linda,

Sua nobre figura adorna as festas

E enflora os sonhos dos valentes. Elle,

O famoso cantor, quebrou da morte

O eterno jugo; e a filha da floresta

Hade a historia guardar das velhas tabas Inda depois das ultimas ruinas.

Morto, é morto o cantor dos meus

guerreiros!

Virgens da mata, suspirai commigo!

«O piaga, que foge a extranhos olhos,

E vive e morre na floresta escura,

Repita o nome do cantor; nas aguas

Que o rio leva ao mar, mande-lhe ao