Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 138 de 161

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Poesias Completas

A Mosca Azul

Lembra-me que, em certo dia,

Na rua, ao sol de verão,

Envenenado morria

Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,

De um riso espurio e bufão,

Ventre e pernas sacudia

Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso

Passava, sem se deter,

Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,

Como se lhe désse gozo

Ver padecer.

 

A MOSCA AZUL

Era uma mosca azul, azas de ouro e

granada,

Filha da China ou do Indostão,

Que entre as folhas brotou de uma rosa

encarnada,

Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia

Refulgindo ao clarão do sol

E da lua,—melhor do que refulgiria

Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e

tristonho,

Um poleá lhe perguntou:

«Mosca, esse refulgir, que mais parece

um sonho,

Dize, quem foi que t'o ensinou?»

Então ella, voando, e revoando, disse:

—«Eu sou a vida, eu sou a flôr

«Das graças, o padrão da eterna

meninice,

«E mais a gloria, e mais o amor.»

E elle deixou-se estar a contemplal-a,

mudo,

E tranquillo, como um faquir,

Como alguem que ficou deslembrado de

tudo,

Sem comparar, nem reflectir.

Entre as azas do insecto, a voltear no

espaço,

Uma cousa lhe pareceu

Que surdia, com todo o resplendor de um

paço

E viu um rosto, que era o seu.

Era elle, era um rei, o rei de Cachemira,

Que tinha sobre o collo nú

Um immenso collar de opala, e uma

saphyra

Tirada do corpo de Vischnu.

Cem mulheres em flôr, cem nayras

superfinas,

Aos pés delle, no liso chão,

Espreguiçam sorrindo as suas graças

finas,

E todo o amor que tem lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem ethiopes

feios,

Com grandes leques de avestruz,

Refrescam-lhes de manso os aromados

seios,

Voluptuosamente nus.

Vinha a gloria depois;—quatorze reis

vencidos,

E enfim as páreas triumphaes

De trezentas nações, e os parabens

unidos

Das coroas occidentaes.

Mas o melhor de tudo é que no rosto

aberto

Das mulheres e dos varões,

Como em agua que deixa o fundo

descoberto,

Via limpos os corações.

Então elle, estende a mão callosa e

tosca,

Affeita a só carpintejar,

Com um gesto pegou na fulgurante

mosca,

Curioso de a examinar.

Quiz vel-a, quis saber a causa do

mysterio.

E, fechando-a na mão, sorriu

De contente, ao pensar que alli tinha um

imperio,

E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece

Que se houve nessa occupação

Miudamente, como um homem que