Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 10 de 89

Páginas do PDF

Somos Todos Canalhas

Intervenção 5 Clóvis

Intervenção 5

Clóvis

 

Imaginemos que essa grade de ideias progressivamente abstratas, que parte da ideia das coisas particulares e que passa pelas ideias de bem, de verdade e de beleza, até finalmente chegar à ideia de ser, seja condição da correta atribuição de valor. Então, observando a vida como ela é, reparando como as pessoas vivem no cotidiano, podemos fazer algumas inferências imediatas.

A primeira delas é que passamos boa parte da vida, que chamamos de infância, com uma capacidade de abstração quase nula ou muito rudimentar. Por isso, de certa maneira, esse período infantil da vida, tão aplaudido nos dias de hoje, seria para Platão um intervalo de erro atrás de erro, uma fase marcada por escolhas tortas. Época de valores equivocados. O homem só conseguiria começar a atribuir valor corretamente às coisas do mundo e, portanto, a fazer escolhas existenciais adequadas depois de uma formação intelectual bem razoável, o que condenaria boa parte da nossa vida a uma ignorância temerária.

Não por acaso, os pensadores gregos consideravam a criança um ser ainda imperfeito. Poderíamos compará-la a um bolo que ainda não terminou de cozinhar. A criança, nesse sentido, seria um vivente inferior, de segunda classe, com sua pobre competência intelectiva na busca da ideia de ser.

Uma segunda inferência é social. O indivíduo, para conseguir se elevar, levantar-se da estrita particularidade em que está imerso no seu cotidiano, precisa de formação filosófica voltada para o suprassensível, que lhe possibilite essa abstração progressiva. Ora, essa formação é rara. Tanto no mundo aristocrata dos gregos quanto no nosso, onde o domínio de saberes técnicos se faz premente, o investimento em questões metafísicas constitui-se num hobby alternativo.

Assim, mesmo aqueles indivíduos que atingem altos níveis de escolaridade passam – na sua imensa maioria – longe desse tipo de investigação. Portanto, de certa maneira, poderíamos acreditar que por questões de trajetória, de aprendizado, de convivência, boa parte das crianças do nosso mundo permanece num estágio intelectualmente infantil. Logo, seriam bolos que nunca chegam ao seu estágio de pleno cozimento. Permanecem crus até a velhice.

Uma terceira inferência muito cara ao pensamento grego é justamente a de que essa busca, essa investigação, esse aprendizado exige certas competências inatas, que já nascem com o indivíduo. Portanto, no entendimento de Platão, as almas não são todas igualmente competentes. Lembrando sempre que é a alma a responsável por esse tipo de busca. O indivíduo que, por alguma razão, nasce com um corpo fadado a aprisionar uma alma de quinta, por mais que venha a ter oportunidades de formação filosófica, não conseguirá grandes resultados. Não desenvolverá uma competência intelectiva. Poderíamos dizer que ele não é do ramo propriamente.

Essas três inferências nos permitem concluir que para Platão o exercício de se atribuir corretamente valor às coisas do mundo não é para qualquer um. Só uma parte insignificante da população consegue se aproximar desse tipo de competência: os filósofos.