Somos Todos Canalhas
Ficha Técnica
Copyright © 2015 Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu
Copyright © 2015 Casa da Palavra
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19.2.1998.
É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora.
Este livro foi revisado segundo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Revisão
André Uzêda
Capa
Retina 78
Projeto gráfico de miolo e diagramação
Abreu’s System
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
B277v
Barros Filho, Clóvis de, 1965Somos todos canalhas: filosofia para uma sociedade em busca de valores / Clóvis de Barros Filho, Júlio Pompeu. – 1. ed. – Rio
de Janeiro: Casa da Palavra, 2015.
ISBN 9788577345311
1. Filosofia – História. I. Pompeu, Júlio. II. Título.
14-18501 CDD: 109
CDU: 1(09)
CASA DA PALAVRA PRODUÇÃO EDITORIAL
Av. Calógeras, 6, 701 – Rio de Janeiro – RJ – 20030-070
21.2222-3167 21.2224-7461
editorial@casadapalavra.com.br
www.casadapalavra.com.br
Apresentação
Este livro é um diálogo entre dois professores com algumas coincidências de trajetória. Ambos tiveram formação inicial em direito, mas começaram a vida acadêmica já com alguma insatisfação, o que os levou a procurar áreas de conhecimento externas aos dogmas jurídicos. Nesta busca, os dois acabaram tendo um encontro tardio com a filosofia, e se uniram por uma amizade que já dura mais de dez anos.
O diálogo é uma forma particular de pensar e produzir reflexão em que nenhuma das partes controla os caminhos do pensamento. Cada um dos interlocutores, considerando o que foi dito pelo outro, se vê impelido a refletir de um modo que não havia planejado no início do diálogo. A cada interação, a cada ideia trocada, surge a necessidade de enveredar por caminhos impensados no princípio da aventura. O diálogo também é uma manifestação de respeito. Nele há uma profunda certeza de que o melhor pensamento não é obra solitária, mas coletiva. O diálogo assume a premissa de que dois pensam melhor do que um e pressupõe a humildade de assistir à contestação do próprio argumento, bem como a firmeza de contestar o argumento do outro.
No diálogo, admite-se certo improviso, o que faz dele um método de reflexão muito mais próximo das condições experimentadas na vida de carne e osso do que os sofisticados e rigorosos planejamentos solitários dos livros convencionais. Este livro é um diálogo que permite ao leitor a leitura de pontos de vista por vezes complementares, por vezes reciprocamente esclarecedores, por vezes exemplificadores e por vezes, ainda, excludentes, contraditórios, incompatíveis.
Não por acaso, a filosofia nasce de diálogos – ao menos, no Ocidente. O mais influente pensador ocidental de todos os tempos recorreu a esse procedimento para realizar sua reflexão. Para ele, diálogo era método e também estilo literário, e as obras que o utilizavam como base eram feitas para serem compreendidas por qualquer um. Platão acreditava que a filosofia era para poucos. Apenas uma parcela da população teria a virtude da compreensão da sua filosofia profunda. Para esta, ele nada escrevia. Eram tão poucos que bastava a aula, bastava o encontro direto. Eram os seus livros, todos na forma de diálogos, que se destinavam ao grande público. A este ele facilitava o acesso à filosofia com exemplos, alegorias e repetições.
Como método, o diálogo pressupunha a boa-fé de, juntos, os participantes buscarem o esclarecimento. Nem sempre isso ocorre em diálogos. Há muitos encontros que parecem diálogos, mas que não passam de monólogos justapostos. Outras tantas vezes, sequer justapostos são. Tratam-se mais de uma espécie de encontro de pessoas que falam ao mesmo tempo, sem nenhuma pausa – ou interesse – para ouvir o que o outro tem a dizer. Falta-lhes boa-fé e disposição de espírito para reconhecer argumentos, ideias e pontos de vista melhores ou mais esclarecedores do que os seus. O ponto de partida de um encontro assim não é a certeza, mas a incerteza – duas pessoas que não estão certas sobre nada a princípio, mas que acreditam que juntas podem aprender algo.
Da antiguidade até hoje, a filosofia parece ter perdido esse espírito da boa-fé e do diálogo. Falta-lhe muitas vezes a generosidade de tentar tornar o pensamento acessível. Adotou-se o estilo daqueles que eram inimigos de Sócrates e de Platão: os retóricos, que não tinham a boa-fé como premissa metodológica, nem o diálogo como método. Tampouco viam a ignorância como ponto de partida. Eram sábios. Sabiam tudo de antemão. Produziam discursos longos, grandes monólogos. Dirigiam-se a um público passivo que apenas ouvia. Não havia questionamento. Quantas aulas de filosofia não transcorrem hoje exatamente dessa maneira? Não consigo sequer enumerar as aulas de filosofia nas quais, ao levantar o dedo para fazer uma pergunta, ouvi do enfastiado professor: “Pergunta de aluno só tem de dois tipos: as que são absolutamente impertinentes, que é o seu caso, e as que serão respondidas posteriormente. Então, ouça o meu conselho. Cale-se e ouça. Filosofia é o que sai da minha boca. Não é o que há, nem de perto, na sua cabeça!”
Por não estar sob o controle de nenhum dos que dialogam, o diálogo pode enveredar por caminhos imprevistos e distantes das inquietações de início. Cabe aos debatedores, portanto, certo bom senso no sentido de se conservarem próximos à preocupação inicial, sobretudo quando o diálogo é oferecido – e este é o caso aqui – à leitura de mais gente. Uma leitura proposta em mercado e oferecida ao consumo costuma conter promessas na capa – promessas de objeto, método, estilo e alcance. E, portanto, a liberdade que poderia caracterizar um diálogo de fim de noite com intercâmbio de parênteses sem volta dá lugar a certa disciplina que busca o esclarecimento de um objeto. E o nosso objeto é o valor; de um lado, o valor entendido na sua perspectiva mais ampla, ou seja, o valor enquanto tal. E, de outro, o valor das coisas; o valor que faz parte das relações que mantemos na vida; o valor do que é particular, dos encontros individuais. E aí, é claro, muita coisa pode ter valor: os objetos, as condutas, as obras de arte, as paisagens do mundo, os discursos. E muitas vezes esse valor acaba sendo classificado em função do seu objeto. Assim falamos em valor moral, valor estético etc.
Na hora de atribuir valor, invariavelmente nos reportamos a alguma referência, de tal forma que o valor das coisas pode ter a ver com a maneira como se compõe o universo, com sua harmonia com o resto; pode ter a ver com a alegria que desperta em quem as encontra; com verdades absolutas, ideias perfeitas; com alguma transformação social que se pretenda alcançar; com o grupo social a que se pertence; ou com o nível de oferta e de demanda. E assim os valores também se deixam categorizar em função das suas referências. Logo haverá quem fale em valor cósmico, valor afetivo, valor econômico etc.
Muitas são as formas de classificar o nosso tema. Igualmente vastas são as abordagens possíveis. Por isso, é preciso alertar o nosso leitor. O que oferecemos aqui é uma perspectiva entre muitas possíveis, que resulta de uma formação, de um lugar no mundo ocupado pelos debatedores, de uma trajetória de experiências de cada um dos que dialogam, bem como dos objetivos que cada um deles pretende alcançar com este diálogo. Mas outros infinitos livros com o mesmo tema poderiam ser propostos por historiadores, sociólogos, economistas, psicólogos, geólogos. Por isso, é salutar desde o princípio advertir o leitor sobre as fronteiras do alcance pretendido com esta obra.
Dialogando, tratamos na primeira parte deste livro do pensamento grego antigo. Na segunda, falamos do pensamento cristão e de Immanuel Kant. Na terceira, abordamos a perspectiva utilitarista dos valores. E na última parte, apresentamos alguns valores em espécie. De maneira geral, procuramos apresentar modos como uns poucos pensadores trataram a questão do valor. Como consequência da própria natureza do diálogo, o fizemos sem dogmatismos. Num momento ou outro o leitor encontrará afirmações de pensadores antigos que podem parecer à primeira vista algum tipo de norma ou recomendação – pensamentos às vezes tão bem construídos por gênios de outras eras que parecem pôr um ponto final na questão dos valores. Portanto, podem se prestar eventualmente a alguma leitura que os dogmatize, que os tenha como uma espécie de grande lição sobre como pensar os valores ou sobre como atribuir valor a alguma coisa.
Rogamos ao leitor que não caia na armadilha do dogmatismo. Por mais interessante que possa parecer o argumento de um pensador, deixar-se seduzir por ele ao ponto de lhe consagrar um altar e desconsiderar todas as ideias discrepantes é contrário ao espírito da filosofia. Isto é comum em livros de autoajuda. Nada contra a ideia propriamente dita da autoajuda. Nada contra as pessoas que precisam de ajuda e a buscam num livro. Nada contra o “auto” da autoajuda, que alguém seja capaz com esforço próprio de transformar a própria existência. O problema é o aspecto manualesco que as obras rotuladas como autoajuda costumam ter; a maneira como elas pretendem nos dar lições, regras, leis sobre os mais diversos aspectos da vida. Algo aqui pode parecer uma dessas lições, pode parecer uma lei. Mas não se iluda – não são. Esta obra discute ideias, mas não dá garantias de eficácia como os manuais de autoajuda.
Por fim, para evitar a ilusão, caso o leitor tenha encontrado este livro na prateleira de autoajuda, pedimos que procure o responsável pela livraria e comunique a ele que o livro está no lugar errado. A estante correta é a de filosofia.
PS 1: Se for constrangedor ir até o caixa da livraria com um exemplar nas mãos, adquira pela internet. A opacidade da rede costuma dar abrigo a quem não pode assumir o que faz.
PS 2: Não há nenhum risco que a leitura deste livro, destinado a canalhas, cause danos à sua identidade. Exclua o leitor deste grupo tão vitorioso. Afinal, todo produto colocado à venda deve carregar a pretensão de alargar seus consumidores potenciais.
PS 3: E se você ainda acha que este livro é destinado a um público restrito, reflita: quem, em qualquer sociedade do mundo, nunca cogitou saciar seus apetites particulares em detrimento da convivência?
Introdução
Desde que o homem pensa, estamos em busca de valores absolutos tais como o bem, o sagrado, o belo – atemporais e independentes da história. O niilismo, que proclama a morte de Deus, contribuiu largamente para fazer acreditar na sua inexistência. Tanto para o niilismo filosófico quanto para o relativismo ético, toda investigação sobre valores é uma grande bobagem ou uma grande sacanagem; uma tentativa de fazer triunfar uma alegria sobre a outra em nome de uma verdade absoluta que faz défaut. O problema é que apesar disso tudo temos que continuar vivendo e convivendo. E, salvo o melhor juízo, nossa vida e nossa convivência continuam dependendo de escolhas. E estas sempre implicarão a identificação do que mais vale a pena. Portanto, ainda que eles sejam uma grande bobagem ou uma grande sacanagem, a verdade é que continuaremos precisando de valores para fazer nossas escolhas, encontrar nossos caminhos, seja na particularidade de nossas vidas íntimas ou na coletividade da nossa ética social. E mesmo que alguém sugira que não há liberdade alguma e que não passamos de células ignorantes, incapazes de identificar a complexa rede de causalidades que nos determina estritamente, o fato é que dentro dessa ignorância nos acreditamos livres, senhores de certa autonomia de escolha, trazendo de novo à baila a necessidade da discussão sobre os valores. Aliás, a convicção de que os valores não passam de uma grande bobagem parece atender aos interesses de muitos. Porque assim estaríamos definitivamente chafurdados no reino da animalidade, onde o triunfo da força é garantidor do triunfo dos apetites, dos prazeres em detrimento do que nos é estranho, alheio e sem importância.
Quando se acusava a filosofia de Sartre do risco da gratuidade, por conta de sua concepção de uma liberdade emergente do nada para criar valores sem fundamento natural nem transcendente, ele respondia usando o exemplo da pintura de Picasso. Quando Picasso pinta, ele não obedece a nenhuma norma pré-existente nem a nenhuma ideia do belo. Não recorre a nenhum ideal eterno de arte pictórica. E, ainda assim, quando falamos de uma tela de Picasso, jamais dizemos que se trata de uma produção gratuita ou frívola. Ele não pinta de qualquer jeito. Não pinta qualquer coisa. É exigente. Rigoroso. E estrito. Portanto, inventa critérios que lhe são próprios. Submete sua pintura a si mesmo até obter um resultado que o satisfaça plenamente. Ele é criador de valores.
Parece difícil pensar assim, pois estamos mais acostumados a pensar valores com uma perspectiva econômica. Os valores econômicos não são da mesma ordem a que pertencem os valores éticos, estéticos ou espirituais. Mas é no mundo da economia que a palavra “valor” ganhou um sentido preciso. E é certamente nas esferas econômica e financeira que o processo que tende a fazer do valor alguma coisa de subjetivo e variável, e não absoluto e estável, começou a emergir. Os economistas clássicos, desde Adam Smith, acreditavam que o trabalho e o esforço necessários para a produção dos bens que se trocam num mercado poderiam fornecer a medida universal do seu valor. Eles enxergavam no tempo de trabalho necessário à produção uma espécie de lei ao alcance universal que regulamentaria mais ou menos conscientemente a troca dos bens.
No final do século XIX surge uma nova concepção de valor que decorre da tomada de consciência do preço real e verificável tal como ele se determina num mercado de maneira variável, momentânea, pelo jogo sempre questionável, pelo jogo sempre a redefinir e imprevisível da oferta e da demanda. Não é o trabalho, mas a intensidade subjetiva da necessidade do desejo por este ou aquele bem em determinado instante que determina o valor das coisas. Para determinar o que valem os bens, nos ensinam os economistas neoclássicos, é o ponto de vista do consumidor em busca da satisfação de um desejo que conta, e não o do produtor. É, portanto, o ponto de vista da satisfação do consumo, jamais o do esforço para a produção. O mercado, na sua forma pura de concorrência perfeita, parece um leilão. Ou a bolsa, onde múltiplos fatores, desejos subjetivos, angústias de circunstâncias e apostas aleatórias determinam o preço instantâneo, pelo jogo sempre resvaladiço da oferta e da demanda. E não podemos encontrar aí nenhum elemento de estabilidade ou nenhuma lei universal e permanente que possa explicar a determinação do preço sobre o qual recaem todos os acordos entre os jogadores em troca. Os caprichos mais loucos podem incidir tanto quanto a reflexão mais lógica e ajuizada.
A tentativa de uma busca impessoal, objetiva e racional do valor é substituída por uma constatação decepcionante de um valor marcado pela subjetividade ou ao menos pela intersubjetividade, mas certamente transitório, momentâneo, que não parece responder a nenhuma lei reguladora que transcendesse a mais estrita contingência das operações do mercado, a confrontação permanente das imprevisíveis incidências de oferta e demanda. O valor deixa de pertencer à esfera da norma e torna-se destaque do mundo do acontecimento. Esta guinada hedonista e subjetiva, tardiamente admitida pela teoria econômica, nunca mais saiu de cena e se tornou hegemônica até os dias de hoje.
Atualmente, constatamos que nossa vida, cheia de encruzilhadas diante das quais devemos fazer escolhas sobre o bom, o belo, o justo e outros tantos valores, não se deixa resumir a critérios absolutos. A vida não é consumo, porque não somos coisas. Também não é desejo, porque nossos desejos mudam a todo instante. Somos inconstantes, assim como os instantes da vida também o são. Tudo muda e tudo o que nos afeta é sempre inédito. Engana-se quem pensa que a alegria de ontem necessariamente será a alegria de hoje. Ainda que o objeto alegrador seja o mesmo, nós não somos mais os mesmos. Somos outros, afetados por vinte e quatro horas de alegrias e tristezas, aporrinhações e surpresas. Na transformação constante de nossos afetos e pensamentos, torna-se impossível uma lei das escolhas que garanta que sempre escolheremos as coisas segundo seus verdadeiros valores.
Sófocles, o tragediógrafo grego, nos apresenta em Édipo Rei uma esfinge terrível, que se coloca diante dos viajantes lançando um enigma: “Decifra-me ou te devoro.” Nossa esfinge são os valores. Ou os compreendemos e assumimos as rédeas de nossa existência, agindo de acordo com os nossos valores, ou então nos deixamos devorar por eles e vivemos uma vida cujos valores são estranhos a nós mesmos. Nietzsche nos falava de uma estética da existência, de fazer de nossa vida o objeto de nossa obra de arte, incitando-nos a perguntar se a vida que levamos é autêntica como uma obra de Picasso ou medíocre como um quadro qualquer. O que apresentamos a seguir são formas como os valores foram pensados por alguns dos maiores gênios da humanidade e, assim, esperamos ajudá-lo a não ser devorado pelos valores que lhe empurram goela abaixo todos os dias.