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Intervenção 3 Júlio
Intervenção 3
Júlio
Enquanto a fidelidade é o respeito à memória, a confiança é uma referência ao futuro, às expectativas. Expectativas essas que na imensa maioria das vezes não podemos confirmar. Pensemos, por exemplo, em alguém que vai ao banco e pede um empréstimo. O banco diz que empresta a quantia desde que o cliente cumpra certos requisitos: que assine contratos, notas promissórias, que apresente bens em garantia ou uma pessoa para que, caso o solicitante não honre o contrato, caso seja infiel em relação ao banco, assuma o seu lugar como devedor. O bem dado em garantia chama-se fiança. Aquele que aceita assumir a dívida em seu lugar é fiador. Quando há fiança ou fiador é porque não há confiança. É a tentativa de eliminar a incerteza sobre o futuro. O banco exige toneladas de papéis. Toneladas de garantias. E, muitas vezes, empresta e não vê de volta a cor do dinheiro. Espera receber de volta o valor emprestado mais juros extorsivos, mas às vezes se vê frustrado na sua expectativa, apesar de todos os papéis e garantias.
O fato é que sendo cada instante inédito, sendo cada um de nós a cada instante um novo “eu”, a incerteza é a condição que rege a existência. E sendo ela uma condição, ou nós moralmente escolhemos confiar ou desconfiar. Imagine aquele que desconfia de forma radical. O amigo liga e diz: “Vamos jantar. Você é meu convidado. Quinta-feira, às oito da noite.” E o desconfiado pensa: “Quem me garante que haverá jantar? Quem me garante que você não mudará de ideia? Quem me garante que um terremoto não ocorrerá e o seu apartamento desabará? Quem me garante ao ponto de eu poder ficar tranquilo e não ir ao mercado comprar nenhum alimento caso essa expectativa de jantar não se realize e eu me veja desprovido de alimentos para preparar o meu jantar?”
Podemos levar a desconfiança à radicalidade, mas aí seríamos completamente antissociais. A vida e as relações com o mundo se tornariam impossíveis. Se atravessamos uma rua, sabemos que se uma jamanta carregada de concreto passar por cima de nós a chance de sobrevivência é mínima. Sabemos que ao sair de casa se um avião cair sobre nossa cabeça a chance de sobrevivência é mínima. Sabemos que ao sair de casa – ou mesmo sem sair dela, só de nos sentarmos próximos à janela – se uma bala perdida nos atingir, dificilmente sobreviveremos. Mas ainda assim nos sentamos rentes à janela. Ainda assim atravessamos a rua. Ainda assim saímos de casa. Por confiança. Ou confiamos ou não vivemos. Confiamos porque somos capazes de entender o princípio de incerteza que rege a existência. Ou há moralidade nessa tentativa de afastar as incertezas ou há a ilusão de que o mundo poderia ser mais previsível do que ele é.
Quando nos casamos, dizemos “sim” diante de um sacerdote ou uma autoridade civil. Assinamos livros e documentos – papéis escritos, pois o “sim” não basta. Provas e testemunhas se fazem necessárias. É preciso uma série de garantias sociais e de discursos de que até que a morte os separe. E, dependendo da sua crença religiosa, de que nem depois da morte se separarão. Alimentamos ilusões de que o mundo não seja impermanente. Nutrimos a esperança de nunca precisarmos confiar, quando na verdade o futuro é só expectativa, sem nenhuma garantia de sua realização em conformidade com o que dele esperamos.