Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 21 de 89

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Intervenção 10 Júlio

Intervenção 10

Júlio

 

Concordo, Clóvis. Para Aristóteles, o fato de as coisas se moverem com a finalidade de alcançar o seu lugar no mundo, o seu justo lugar, faz com que nesse sentido as coisas tenham alma. Alma não seria o atributo somente de um ser pensante, de um ser vivo, e sim de um ser que se movimenta em direção ao seu lugar na natureza. Talvez, a principal diferença entre a minha alma de ser vivo e pensante e a alma de uma lajota que cai do alto de uma construção seja o fato de que o movimento desta em direção ao seu lugar na natureza é menos atravancado, truncado e incerto que o meu. A lajota cai verticalmente em direção ao solo ou à cabeça de um operário em movimento constante, retilíneo e uniforme. Já na minha existência de ser pensante e sensível, minha alma se manifesta como consciência, como desejo, como afeto. Tenta me direcionar para o lugar de minha natureza, para o lugar em que eu deveria estar para que o cosmos, na sua perfeita funcionalidade, realizasse a sua finalidade.

Enquanto a lajota cai vertiginosamente, ela não titubeia ou hesita quanto ao caminho da sua queda. Eu, ser de consciência, titubeio. Hesito. Pergunto-me se o lugar onde estou é o lugar onde deveria estar, se aquilo que faço agora é aquilo que de fato deveria fazer, se aquilo de que eu gosto é por gosto genuíno, verdadeiro, Será que eu não vivo de alguma forma deslocado do meu lugar de existência? Será que não há outro lugar mais adequado para a minha existência? Outro modo de vida mais adequado que esse? Será que não há, em resumo, outra vida que valha mais do que a vida que levo? Será que não avaliei mal a minha existência? Tudo isso faço eu, ser dotado de consciência. Assim se manifesta minha alma hesitante, ao contrário da alma da pedra. Sem hesitação. Na sua ausência de consciência, na sua pétrea ignorância, a pedra parece saber com muito mais precisão qual é o seu lugar na natureza do que qualquer um de nós, seres pensantes.

É por isso que os estoicos, pensadores do século II d.C., tal qual os gregos que lhes antecederam, acreditavam que existiria na natureza um lugar para cada um. Um único lugar perfeito no cosmos. Um lugar de ajustamento para cada um de nós. Um lugar onde realizaríamos perfeitamente a nossa virtude. Acreditavam que os seres sem razão e sem consciência eram mais felizes do que nós. Porque, sem a hesitação, sem a incerteza da existência, existiriam mais facilmente em conformidade com o seu lugar. Teriam vida mais ajustada e por isso mais feliz.

Um exemplo: uma beterraba, até onde me consta, não tem consciência da beterraba que é. Da mesma forma não teria consciência da beterraba que não é. Por isso, ela não tem crise existencial dizendo para si mesma: “Nossa, sou beterraba e ser beterraba é isso que sou e não gosto disso que sou. Queria ser rabanete. Rabanete é mais redondinho, mais interessante, porque tem cores mais vibrantes. Ser rabanete é mais legal!” O rabanete nasce rabanete, cresce rabanete e morre rabanete em salada. A beterraba também nasce beterraba, cresce beterraba e morre beterraba. Beterraba vive vida de beterraba enquanto rabanete vive vida de rabanete, mas nós, qual é o nosso lugar? Nascemos para rabanete, para beterraba, para engenheiro, para CEO, para professor, para jogador de futebol? Nascemos para quê? Para onde nossa alma, essa força que nos movimenta, deveria nos inclinar na natureza? Isso para nós é uma incerteza que faz nossa vida, de certa forma, ser menos digna do que a vida dos animais. Menos digna até do que a vida dos seres inanimados. Na perfeição da adequação do encaixe do animal ao seu lugar na natureza e da pedra ao canto do universo onde ela nasceu para estar é que nós deveríamos nos inspirar para bem avaliarmos a nossa existência. Para bem existirmos.