Somos Todos Canalhas
Intervenção 2 Clóvis
Intervenção 2
Clóvis
Platão oferece ferramentas para pensar essa atividade da razão que nos permite atribuir valor às coisas, às condutas, aos corpos etc. Vou pegar você leitora pela mão. Quanto aos leitores do sexo masculino, terão que caminhar sem amparo, tropeçando em cada conceito.
Comecemos lembrando que Platão recomenda certa desconfiança daquilo que você vê com os olhos. E por quê? Se você acha que aquilo que vê é o que as coisas são, pode estar enganado. Basta mudar de posição em relação à coisa observada. Aí então ela se apresentará de outra maneira. Você enxergará outra coisa.
Ora, a partir do momento em que você pode mudar de posição infinitamente – porque é possível mudar de ângulo, de perspectiva, de distância – cada novo ponto de vista te traz um resultado visual diferente. Todas as coisas do mundo podem ser captadas por infinitas percepções. Mas então, como fica a correspondência entre o que as coisas são e o que você vê delas?
De duas uma: ou uma só coisa é também infinitas coisas diferentes, o que é absurdo, ou então aquilo que você vê não corresponde ao ser, ao que as coisas realmente são. Porque se as coisas são, elas são uma coisa só. E, portanto, não são nem três, nem quatro, nem cinco, muito menos infinitas. Isso nos permitiria concluir, segundo Platão, que o que você vê não é o que a coisa é. É uma aparência que não coincide com o ser da coisa. A visão, portanto, nos afastaria das coisas, do que elas realmente são. Ela nos confunde, nos distancia do ser.
Se as coisas não são o que vemos, o que será que elas seriam? Poderíamos saber algo das coisas para além da percepção? O que poderia haver nas coisas além dessa percepção? Como chegar ao que elas são de verdade se não pelos sentidos?
Tomemos como exemplo uma galinha, dessas que você já encontrou na sua vida. Uma galinha viva. Dependendo do grau de urbanidade em que esteja inserido, talvez você nunca tenha visto uma galinha viva. Mas tomara que não seja assim. E aí você é obrigado a aceitar que aquela galinha que é a sua galinha, aquela que você encontrou, a galinha da sua vida, que passou pela sua frente, não é exatamente igual a nenhuma outra galinha do mundo. E você sabe disso porque, se enfileirar trinta galinhas, notará algumas diferenças entre elas.
Na verdade, isso não funciona só para galinhas. No mundo não há nada igual a nada. A igualdade não passa de uma operação matemática, um recurso da razão. Se o leitor imaginar um mundo sem vida inteligente, nele não haverá igualdade. Tampouco diferença. Nesse mundo só haveria matéria. Seria um mundo onde tudo apenas é, e ponto final. Voltando à galinha, insisto: a sua galinha não é exatamente igual às outras.
Muito bem. Veja que curioso. Você acaba de encontrar uma galinha que é diferente de qualquer outra e, no entanto, tem certeza de que se trata de uma galinha. Ora, se você nunca viu aquela galinha antes e se ela é diferente das outras que já tenha visto, como pode saber que aquilo é uma galinha?
Platão vai nos sugerir que por detrás das particularidades daquela galinha, do seu tom de pena, do seu cacarejar específico, do seu andar manquitolante; por detrás de uma pequena cicatriz que ela teve por conta da agressão de um galináceo mais afoito; por detrás de tudo isso existe uma essência de galinha – isto é, aquilo que toda galinha tem que ter para ser galinha. O que está por trás de todas as particularidades e detalhes distintivos, que consta em toda e qualquer galinha. E você sabe que aquela galinha é galinha porque conhece essa sua essência – uma essência que só existe enquanto ideia, claro.
Então, veja que Platão acaba de estabelecer uma distinção fundamental. De um lado, existem as galinhas que você encontra no mundo usando os sentidos do corpo; e, de outro, existe a ideia que você tem de galinha, que não se encontra dando uma volta por aí, com seu próprio corpo e sentidos. Porque você só encontrará galinhas de carne e osso. Naturalmente a pergunta é: se você não esbarra na ideia de galinha, como a encontra? Como a conhece?
Platão explica que a ideia de galinha é encontrável pelos olhos da razão, e não pelos olhos dos sentidos, do corpo. A ideia de galinha é o resultado de uma operação intelectiva, de um pensamento, de um trabalho intelectual. Veja que interessante: galinhas particulares, você as encontra caminhando por aí, usando os sentidos. Já a ideia de galinha, você encontra pensando, refletindo. Lembremos que as primeiras, as galinhas que você vê, não são o ser da galinha. Portanto, a verdadeira realidade da galinha, o seu verdadeiro ser, para Platão, é a sua ideia, é a sua essência – apenas alcançável, portanto, por meio da razão e do intelecto.
Você, caro leitor, pode questionar: qual é a relação entre a essência da galinha e a galinha que está no seu quintal, aquela mesma com a cicatriz? Para Platão a relação entre ambas é de participação e hierarquia. Assim, em primeiro lugar, a galinha com a cicatriz participa da ideia de galinha. Em outras palavras, a ideia de galinha está presente na galinha com a cicatriz. E da galinha com a cicatriz até a ideia de galinha você pode chegar desde que esteja preparado para fazer esse tipo de operação que sai de uma experiência sensorial e, por intermédio de abstrações sucessivas, protagoniza uma experiência meramente intelectual.
Em segundo lugar, entre a galinha que você vê e aquela que você elucubra há uma relação hierárquica; a galinha observada com os sentidos é inferior à ideia de galinha. Porque esta última é o seu ser, a sua real realidade, enquanto aquela que resulta de uma percepção está determinada por uma perspectiva e, portanto, não passa de uma aparência, menos importante do que a sua essência.
Ora, em que medida essa distinção entre as percepções sensoriais e as essências pode fundamentar uma teoria do valor? Pois muito bem. Da mesma forma que o gabarito do professor é referência para o valor da prova do aluno, assim também a ideia seria para Platão a referência a partir da qual poderíamos atribuir valor às coisas do mundo. Sendo fiel aos exemplos, as galinhas de carne e osso teriam maior ou menor valor em função da maior ou menor proximidade com a ideia de galinha. Esta funcionaria como gabarito para o desempenho dos galináceos que passassem pelo nosso crivo. Outro exemplo mais à sua altura, caro leitor: a atribuição de valor a uma ação humana específica decorre de uma comparação entre ela mesma e uma ideia de virtudes como temperança, benevolência, honestidade, entre outras.
Terceiro exemplo: se eu tiver que atribuir valor de beleza a uma mulher – e eu me permito que seja uma mulher porque isso me facilita pensar –, qual é a recomendação mais incisiva de Platão? Que eu relacione aquela experiência sensorial – visão, tato, paladar, olfato –, que é a observação do corpo da mulher, com uma referência: a ideia de beleza. Mas Platão adverte: chegar até a ideia de beleza não é nada fácil. Na verdade, há um imenso percurso intelectual entre a beleza flagrada no corpo de uma mulher, sua generosidade glútea ou mamária, e a ideia de beleza. É uma escada com muitos degraus de abstração.
Assim partimos de um flagrante particular: uma mulher de topografia generosa, com nome, endereço e idade. O degrau superior a este é uma ideia de corpo feminino. Desta, passamos a uma ideia de corpo humano belo. E daí para uma ideia de corpos belos, para finalmente chegarmos ao belo desencarnado – um belo em si, sem nenhuma matéria como suporte. É um longo caminho.
Eis a referência que permitiria identificar o belo em qualquer particular. Sem erro. Sem preferências. Sem circunstâncias. Referência sem a qual todo juízo particular de beleza seria temerário e estaria a mercê das atrações e repulsas de circunstância. Em outras palavras, sem a ideia de beleza na cabeça, é impossível saber se aquela mulher ali na outra mesa é mesmo bela ou está se aproveitando de algum momento nosso de fragilidade.