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Intervenção 11 Júlio
Intervenção 11
Júlio
Confesso, Clóvis, que acho interessante o modo como Platão coloca a questão da natureza humana de um lado e da liberdade existencial de outro num diálogo intitulado Protágoras. Esse diálogo é um pouco diferente dos outros textos platônicos, porque no geral Sócrates entra nos embates retóricos para vencer. E quando quem discute com Sócrates é um sofista, aí então a vitória é acachapante. Mas nesse diálogo em especial, Sócrates se mostra respeitoso para com Protágoras. Ele admira seu interlocutor. Os sofistas ensinavam as pessoas a falar bem. Eram professores de retórica. Mais do que isso – eles até ajudavam as pessoas a se preparar objetivamente para uma discussão. Imagine, por exemplo, que você more num condomínio e haja uma reunião na qual deliberarão sobre a criação ou não de uma taxa extra para reformar a fachada do edifício. E você tem interesse nisso porque pretende vender o seu apartamento e, portanto, com fachada reformada o seu imóvel se valorizará. E aí você, se grego fosse, procuraria um sofista e diria: “Quero que aceitem a taxa extra. Ajude-me a criar argumentos que sejam convincentes. Ajude-me a imaginar que perguntas e ideias seriam opostas aos meus argumentos para que eu pudesse me antecipar e preparar respostas na ponta da língua para ter um bom desempenho, para ser convincente.”
O sofista é aquele que empodera pessoas, fornecendo-lhes técnicas para prevalecerem sobre as outras, independentemente do fato ou das ideias que defenderão serem justas, boas, verdadeiras, ou não. Por esse motivo, Sócrates e Platão detestavam os sofistas. Mas Protágoras é diferente porque não dava aulas para qualquer um. Era seletivo. Não está nessa apenas pelo dinheiro. Tem uma causa. Protágoras é um democrata radical. Acredita, por princípio, que os homens são iguais. Platão discorda dessa ideia. Como bom elitista, ele acha que algumas pessoas são melhores do que outras, porque umas têm vida mais em conformidade com o ideal do que outras. As pessoas que são melhores deveriam governar e fazer as leis, porque assim, feitas por pessoas boas, as leis seriam igualmente boas. Àqueles outros não tão bons, que obedecessem às leis boas. Se as obedecerem, terão vida muito melhor do que aquela que teriam caso resolvessem se deixar governar pelas próprias razões. É o embate, portanto, entre uma perspectiva democrática e uma perspectiva aristocrática.
Nesse diálogo, para justificar a democracia, Protágoras conta uma história de como nós fomos criados. Diz ele que antigamente os deuses lutavam uns contra os outros. De um lado, deuses olímpicos, porque no Olimpo têm sua morada. Do outro lado, deuses das profundezas, habitantes do Hades. Os primeiros defendem o cosmos, que em grego significa ordem. São, portanto, deuses organizadores, que querem ordenar a natureza, fazer dela uma espécie de relógio suíço onde tudo se encaixa, tudo funciona, tudo se inter-relaciona harmonicamente entre si. Já os segundos, são o oposto. Deuses desorganizadores, amantes do caos, sabotadores de relógios suíços.
Uma vez vencida a guerra pelos deuses olímpicos, Zeus impõe sua ordem sobre o mundo e assim faz o cosmos. Desde então, no mundo cósmico, tudo tem o seu devido lugar, tudo tem a sua funcionalidade, tudo acontece da maneira programada para acontecer e com uma regularidade irritante. Zeus termina sua obra e chama os deuses: “Venham ver.” Os deuses olham e dizem: “Nossa, Zeus, está muito bonito! Tudo bem que poderia ter caprichado mais num lugar ou outro, mas o fato é que no geral está muito bonito. Lindo! Mas tem um problema, chato. Muito chato. Porque é uma constante. É uma ordem só. É o vento ventando do jeito que sempre venta. Suas estações se sucedendo do jeito que sempre se sucedem. Tediosa ordem. Imutável e infinita. Não dá para animar não, Zeus?” Este responde: “Sim, criando mortais.” Os deuses questionam: “Mas por que mortais?”
Acompanhe o raciocínio de Zeus. Se o projeto é criar coisas engraçadas e risíveis, é risível e engraçado aquilo que é imperfeito, aquilo que surpreende, portanto, inconstante. Ninguém ri de piada cujo final já se conhece. Imperfeição e inconstância são marcas risíveis. Mas coisas inconstantes e imperfeitas não são dignas da eternidade. Imagine você sentado numa cadeira muito desconfortável. Você torce para o desconforto passar logo. Não é cadeira digna da eternidade. Vale o mesmo para todas as demais imperfeições. Coisas imperfeitas têm que perecer. Por isso, mortais.
Zeus, então, chama alguns deuses de primeira linha para produzir matérias-primas ou atributos como casco duro, dentes afiados, garras poderosas, marfins. Em seguida, convoca dois deuses de quinta categoria, os irmãos Prometeu e Epimeteu. São irmãos de baixa hierarquia no mundo dos deuses que trazem no nome o radical metis: inteligência, pensamento ou astúcia. O pro de Prometeu significa anterioridade. Prometeu seria aquele que pensa antecipadamente ou esperto. Epi de Epimeteu é o contrário de pro, portanto, posteridade. Epimeteu é aquele que pensa depois. Ou, se preferir, retardado. Um irmão esperto e outro retardado. Uma dupla para montar os mortais a partir dos atributos.
Da união de um esperto com um retardado você já pode imaginar o que acontece. O esperto diz: “Vai montando aí que eu vou dar um rolé.” Epimeteu assente. E começa a montar os bichos. Junta meia dúzia de atributos. Corpo molenga com casco duro, vou chamar de tartaruga. Vou pegar esse outro casco, dar uma puxadinha pra cima e chamar de jaboti. Esse outro vou pegar pescoço grande, cabeça pequena para compensar, duas anteninhas em cima, amarelo para chamar a atenção, faltou alguma coisa... manchas marrons e chamarei de girafa! E assim vão sendo feitos os animais. No final, Prometeu volta e ouve do irmão: “Há um problema, gastei todos os atributos e ainda falta um bicho a ser feito. Chama-se homem.” Prometeu vê a situação desse bicho sem atributos e, por isso, sem a menor condição de sobrevivência na natureza. Sem casco duro, qualquer pedra incomoda, não consegue andar. Sem couro resistente, qualquer coisa o arranha. Sem pelos, qualquer frio o congela. Sem garras afiadas, até um tatu lhe domina. Bicho ridículo. Bicho sem condição de sobrevivência na natureza.
Mas é a única coisa que cabe a Prometeu fazer. Então, ele rouba dois atributos não planejados originalmente para constituir mortais, dois atributos divinos: a astúcia de Atena e a engenhosidade de Hefesto ou Hefaistos – Vulcano, na versão latina. Um deus engenheiro e uma deusa guerreira. A astúcia do guerreiro e a engenhosidade do engenheiro. Estes são os nossos atributos. Os outros animais, que possuem atributos conforme o plano original, têm também um lugar na natureza para existir. E por isso a tartaruga, com seu casco e suas patinhas com guelras, consegue nadar. Seu corpo se adapta ao ambiente. É lá que a tartaruga se desenvolve. O animal possui atributos, uma vida ordenada, regulada, como se tivesse um chip existencial que lhe permitisse sobreviver bem em determinado ambiente. Fora do habitat, contudo, ele perece. E, portanto, o animal e seus atributos planejados em conformidade têm um lugar físico no cosmos e um modo preciso de existência. Tudo isso determinado por seus atributos. Já o homem, com esses dois atributos roubados, é diferente. Ele não tem habitat. Qualquer lugar para ele serve porque dispõe da engenhosidade de Hefesto e com ela é capaz de moldar o habitat, a sua condição. Portanto, se o lugar tem pedras pontiagudas, fabricamos sapatos, colocamos asfalto ou azulejos. Se o lugar é muito quente, construímos abrigos. E se o calor aumentar instalamos ar-condicionado. Submetemos o ambiente à nossa vontade. Moldamos o ambiente à nossa natureza.
Enquanto os animais também lutam uns contra os outros, numa ordem de presa e predador, a partir de seus atributos, nós não. Estamos livres dos atributos. Entre nós a regra são os embates astuciosos. E não é preciso muita astúcia para prevalecermos uns sobre os outros – sem natureza existencial, porque nossa vida é regida pela astúcia; sem natureza física, pois a engenhosidade é que nos governa. Somos seres completamente sem natureza. Sem natureza comportamental e sem natureza física de existência. Existencialmente livres. Sem regras. E por isso a democracia fazia sentido para Protágoras. Porque, sendo livres, não temos regras de existência. As regras são inventadas democraticamente por todos nós. Nós que vivemos e somos tanto astuciosos quanto engenhosos seríamos também capazes de criar regras para a nossa existência. E não existiria uma regra certa ou errada. Ele não comunga com Platão da ideia de uma metafísica onde existam valores ideais. E, portanto, qualquer coisa decidida vale, desde que corresponda ao acordo dos muitos que deliberaram por isso, desde que a maioria tenha aplaudido. A regra não teria um valor intrínseco. O valor dela é uma consequência da atribuição de vontades que se encontram. Na perspectiva de Protágoras, rejeitada por Platão, temos a antecipação da ideia moderna de um mundo sem metafísica, sem o lugar dos ideais. Um mundo onde há vontade. Não só cria regras morais, mas uma vontade que também atribui valor e significado às suas coisas.