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Intervenção 4 Clóvis
Intervenção 4
Clóvis
Imagino que a definição de felicidade proposta por Mill seja muito próxima daquilo que entendemos hoje por felicidade no senso comum. Quando comparamos a felicidade – mais prazer e menos dor – com a felicidade de Aristóteles, o pleno florescer das próprias potências na busca de uma harmonia com o cosmos, percebemos o quanto estamos de fato distantes deste último e mais próximos do primeiro.
Merece, no entanto, atenção na definição de Mill que a felicidade seja definida não só pela presença de prazer como também pela ausência de dor. Insisto nisso porque como a questão da dor implica certa negatividade, certa ausência, ela costuma ser menos lembrada. Esse destaque para a falta de dor nos permite inferir o tipo de estado que Mill considerava feliz. Estado de paz e tranquilidade, como se diz. Ele pensava muito mais no sossego de uma casa de campo do que num baile funk ou numa orgia. Numa sociedade que cobra certa excitação como prova de momento feliz, a ausência de dor é quase sempre tomada como óbvia.
A supressão da dor só é claramente percebida como felicidade em situações em que haja dor intensa que finalmente termina. No instante mesmo em que a dor desaparece. Por exemplo, uma dor de cabeça ou na lombar eliminada por algum tipo de massagem ou anti-inflamatório. Apenas no exato momento em que percebemos o fim da dor é que conseguimos entender que a falta dela participa da definição de felicidade. Quando nos acostumamos com ela, tendemos a não mais incluí-la como requisito de uma vida feliz.