Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 34 de 89

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Intervenção 5 Clóvis

Intervenção 5

Clóvis

 

Em acordo com a análise do colega, acredito que o primeiro passo na compreensão dessa nova forma de atribuição de valor que tem o amor como referência positiva está na recusa por parte de Jesus de fixar regras de comportamento que normatizem a vida cotidiana. Ele nos remete à nossa própria consciência, a uma liberdade decisória, a um foro interior. Ênfase esta que se opõe frontalmente a todos os credos religiosos fortemente ritualizados, com destaque para o judaísmo do seu tempo.

É preciso sempre lembrar que Jesus era judeu praticante, mas que ao deslocar o centro de gravidade axiológico, ao considerar como mais relevante a livre consciência, posiciona-se como subversivo, dissidente. Esse deslocamento abre espaço para uma nova forma de discussão da espiritualidade, da reflexão sobre a vida boa, das formas ideais de vida e de convivência.

Em suma, esta autonomia inaugura um novo momento na discussão sobre os valores e suas referências. E também abre portas – por mais estranho que possa parecer ao leitor – para uma laicização progressiva da reflexão sobre os valores e, poderíamos dizer, para a humanização progressiva da valoração do mundo.

Ora, é conhecida a passagem apresentada no evangelho de Marcos quando Jesus é criticado porque seus amigos não lavaram as mãos antes de passar à mesa. Nesse momento, Jesus é atacado por ter amigos impuros. É sabido que seu círculo de amizades não fazia parte da elite da época, não estava entre as personalidades mais influentes e não figuraria entre os top of mind de nada importante.

Jesus então responde a seus críticos: “Não há nada de exterior ao homem que, penetrando nele, possa sujá-lo. Mas o que sai do homem – eis o que o suja.” Ou seja, o que pode macular o coração e a alma vem do interior – maus pensamentos, más intenções.

Esta reflexão confronta radicalmente os rituais dietéticos dos judeus. Ao remeter os valores do homem ao foro interior, à boa conduta, a uma questão de consciência, Jesus propõe uma nova teoria do valor que coloca em xeque toda tentativa de normatização da vida, o que inclui todos os programas prontos de existência aplicáveis a qualquer um, tais como as atuais lições de autoajuda, os atributos da qualidade de vida e os mandamentos do politicamente correto. Intervenção 5