Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 16 de 89

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Intervenção 8 Clóvis

Intervenção 8

Clóvis

 

Retomemos a analogia com o carro de Fórmula 1. Ora, nenhum engenheiro seria louco a ponto de fazer constar no carro alguma peça que não tivesse a função de fazê-lo andar mais rápido, que não tivesse função nenhuma. Porque pelo mero fato de essa peça estar no carro, o seu peso aumentaria, e isso dificultaria as outras partes a cumprirem a sua função. Em qualquer outra máquina o mesmo acontece. Qualquer coisa sem função aumenta desnecessariamente o custo da máquina. Pois muito bem.

Para os gregos, o mesmo aconteceria com o universo. Tudo o que ele comporta – tudo o que existe – tem a sua função. O universo não se permitiria contar com alguma parte que não ajudasse as demais a alcançar a sua finalidade. Sendo assim, podemos concluir que, tendo o universo como referência, se o valor das coisas tem a ver com a forma como elas cumprem a sua finalidade parcial e ajudam o universo a cumprir a sua finalidade universal, então só podemos inferir que tudo no universo tem valor. Se o universo ordenado, cósmico, é a referência, tudo nele tem algum valor.

Em outras palavras, em relação ao universo, nada é indiferente para o pensamento grego. Porque a indiferença implicaria falta de valor. Ela não existiria nem mesmo se algo fosse inútil. Ou, se você preferir, nem mesmo se perdesse completamente a capacidade de cumprir a sua função cósmica. Porque, neste caso, estando no universo, existindo entre as outras partes e cumprindo a sua função cósmica em nível zero, evidentemente estaria perturbando o resto, atrapalhando as demais partes, o que só poderia resultar em valor negativo. E o que tem valor negativo não é indiferente.