Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 17 de 89

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Intervenção 8 Júlio

Intervenção 8

Júlio

 

Outro exemplo que podemos usar, além do carro de Fórmula 1, é o de uma empresa. Imagine que nela há pessoas competentes, como também aqueles que ninguém entende o que fazem ali. Em todo canto há funcionários muito úteis e outros que atrapalham. Por essa perspectiva, todos eles têm valor. Alguns profissionais têm um valor bom, e outros, um valor ruim. E esse valor dependerá da finalidade da empresa. O problema é que, muitas vezes, acontece numa empresa o que acontece na vida: não se sabe ao certo qual é sua finalidade. Qual é a finalidade da existência? Aquela finalidade última que justifica no fim das contas o valor atribuído a A ou a B em verificação da sua utilidade com relação ao todo. Útil para quê?

O mesmo raciocínio vale também para a natureza. Por que o plástico lançado na praia, em local inadequado, é considerado poluição e, portanto, tem valor negativo? Qual é a finalidade do plástico na natureza? Vamos supor que se descubra no futuro que existe uma finalidade para o plástico, que ele contribui para o surgimento de algo bom na natureza por meio de uma reação ainda desconhecida, mas que, uma vez compreendida, demonstrará que ele aumenta a quantidade de certos animais, por exemplo, ou então a fertilidade no interior de determinado ecossistema. Enfim, o fato é que o valor do plástico mudará.

São essas incertezas e imprecisões que diferenciam os que sabem atribuir valor dos que não sabem. Os primeiros conhecem, dentre outras coisas, esse todo que é a natureza, a empresa, o universo. Condição primeira da boa valoração. Por isso, o bom entendedor dos valores não é necessariamente alguém que conheça o conceito de todos os valores, mas aquele que, sobretudo, conheça o todo a partir do qual determinado objeto possa ser valorado. Que saiba os porquês do todo.

Imagine alguém pensando sobre a sua própria vida. Olha para o lado e vê outra pessoa, com outro modo de vida, diferente do seu. Comenta: “Nossa, a vida dele é muito melhor do que a minha!” Valora a própria existência a partir da existência alheia. Poderia valorar a sua vida a partir do ideal de vida, mas troca o ideal (platônico) pela comparação com outra vida qualquer que não a sua. Tenta ser outro que não ele mesmo, viver outra vida que não aquela que, de fato, tem.

Falo da vida, mas vale para uma empresa. Steve Jobs morreu. Pipocaram biografias a seu respeito. Quantos donos de startups não pensaram: “Nossa, se eu fosse como ele minha empresa seria muito melhor. Se eu fosse como ele faria do meu negócio o que a Apple é.” Essa pessoa passa a estudar como Jobs pensava e agia, como era seu processo criativo, seus hábitos, tudo numa tentativa de ser ele. Em pouco tempo, em seu guarda-roupas há apenas camisas pretas com gola rolê. O problema é que cada um de nós nesse universo, que pode ser pensado como um todo, é uma singularidade que compõe esse todo. Se o universo é composto de várias máquinas, então cada um de nós seria uma peça singular e única desse conjunto, peça sem reposição que cumpre uma função única. E dessa multiplicidade incontável de peças únicas um todo harmônico com finalidade precisa se constrói e funciona de alguma maneira.

Bisbilhotar o quintal do vizinho pode ser uma dica constante em livros de autoajuda empresarial, mas, do ponto de vista do pensamento antigo, me parece uma perda de tempo, pois nos levaria única e exclusivamente a atribuir valor ao outro, e não ao próprio sistema no qual se vive. Leitura enviesada da pior forma possível, daquela que pouco contribuiria para o bom julgamento da própria existência.