Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 11 de 89

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Intervenção 5 Júlio

Intervenção 5

Júlio

 

Tem toda razão, Clóvis. Alguns textos apontam que entre os gregos aquilo que marcava o fim da infância não era a idade mágica de 18 ou 21 anos. Inicialmente, a marca do fim da infância era uma característica física: o nascimento do buço. Isto indicaria que aquele jovem já se encontrava no momento em que seria capaz de controlar a si mesmo e a tornar-se pela imposição da razão sobre os seus sentimentos um homem moral e adulto. Capaz, portanto, de exercer de alguma maneira uma espécie de autonomia, do grego autonomos. Nomos é norma, lei; auto, referência a si mesmo. Logo, autonomia é ser capaz de impor uma norma a si mesmo. O contrário disto é a heteronomia. Hetero é o diferente, o estranho, o outro. Na heteronomia, seguimos a lei de outro. Por vezes, o outro que nos governa são nossas paixões, afetos descontrolados.

A criança seria imperfeita, incompleta, porque guiada muito mais por seus desejos, paixões, afetações do instante e pelo descontrole que a caracteriza do que por uma escolha que permitisse levar uma vida constante, como os adultos que escolhem uma profissão e nela investem o resto de suas vidas. Como consequência dessa escolha, acabam muitas vezes adquirindo a cara desse profissional que objetivam. Construindo uma espécie de máscara, assumem trejeitos, desenvolvem modos específicos de falar. Tem-se de alguém assim a impressão de que se tornou outra pessoa. Tornou-se outro, mas o fez por escolha. E mantém-se assim também por livre deliberação. Poderia escolher outra vida, mas não. Prefere manter-se constantemente alinhado com determinado modo socialmente chancelado de existência.

Há um diálogo em que Platão, ou mais especificamente Sócrates, discute com o jovem Alcebíades, que naquele momento de sua vida exibe buço nascido. Foi criado para ser grande político, um líder. Mas agora que percebe o buço, não se sente realmente preparado para exercer essa liderança. É quando Sócrates o aborda. Por um lado há a afirmação de certezas que nada mais são do que incentivos dados ao jovem Alcebíades, que – de tanto ouvir “você pode”, “você chegará lá”, “você é predestinado” – repete esse vaticínio que narraram a ele, mas, por outro lado, ele nutre a dúvida. “Será que estou mesmo preparado tal qual as pessoas dizem que estou?”

O diálogo todo se desenvolve com Sócrates alertando seu interlocutor para a única pergunta que seria de fato importante: “Você é capaz de conhecer a si mesmo?” Porque só quem conhece bem a si mesmo seria capaz de governar a si mesmo. E só aquele que é capaz de governar a si mesmo seria digno de governar outras pessoas. Conhecer a si mesmo, controlar a si mesmo é a característica moral do homem adulto. É justamente o que falta à criança. No entanto, mesmo entre os adultos há aqueles que não se conhecem e se controlam tão bem quanto outros.

Platão era um elitista. Acreditava que cada um de nós já teria nascido com uma espécie de organização própria e imutável entre os lados passional e racional. Nesse sentido, alguns homens nasceram mais preparados por natureza, mais capazes de fazer impor sua razão sobre os seus desejos e, portanto, mais capazes de viver uma vida de constância. Outros, ao contrário, teriam nascido mais organizados em torno dos próprios apetites, submissos à impetuosidade. Para estes, educação nenhuma funcionaria. Já para aqueles nascidos preparados para que a razão domine as paixões e ponha a constância num nível superior ao dos outros, a educação poderia levá-los a bem conhecer a si mesmos, o mundo que os cerca e a tomar posições valorosas. Saber agir em conformidade com a verdade das coisas seria coisa para poucos.