Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 69 de 89

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Intervenção 7 Júlio

Intervenção 7

Júlio

 

Excelentes exemplos, Clóvis! Insisto numa questão: por não podermos ser reduzidos à animalidade, uma vez que os prazeres não são apenas respostas objetivas e imediatas a demandas instintivas do corpo, e porque a inteligência que participa da constituição do prazer, os prazeres são não apenas múltiplos, mas, por um lado, confusos e, por outro, manipuláveis. Confusos porque o modo como idealizamos e imaginamos algo estará diretamente relacionado à maneira como obteremos ou não prazer com alguma coisa. Que seria de nosso prazer sexual, por exemplo, sem a fantasia? Considerando que a fantasia de hoje pode não ser tão excitante amanhã, seja porque foi realizada ou simplesmente porque mudamos de ideia, a mutabilidade e a incerteza dão o ritmo da transformação de nossos desejos. Explico. O coito, antes somente imaginado, é sempre quase perfeito. Os encaixes são anatômicos, o ambiente, agradável, tudo perfeito. Passado o gozo, a fantasia perfeita que tornou o ato particularmente excitante agora é somada às intercorrências da realidade, como o ar condicionado excessivamente frio, o engasgo com a champanhe e o zíper da fantasia de preá que emperrou. O prazer fruído não é equivalente ao prazer fantasiado.

Outro problema é o da influência e manipulação social dos prazeres, como no projeto político de Bentham. Considerando que ideias são compartilhadas, parte significativa dos nossos prazeres acaba sendo quase completamente desvinculada de nossos instintos. Os objetos socialmente considerados prazerosos geram prazer pelo aplauso social, pelos tapas nas costas, pelo olhar de inveja do outro, e não necessariamente porque eles nos sejam particularmente agradáveis. Este tipo de prazer pode ser obtido a partir de qualquer coisa socialmente desejada, uma vez que não é o objeto ou prática que gera prazer, mas o efeito social de sua prática ou posse. Assim, nos aplaudem e invejam se somos astros da música, mas da mesma forma nos aplaudem se somos famosos atores de teatro. Pode ser que algum artista migre do teatro para a música mantendo o prazer pelo aplauso, sem saber ao certo se prefere a música à interpretação. Para aderirmos socialmente, podemos até mesmo, de forma radical, nos contentar com uma vida dolorosa, compensando a dor de tal existência com os aplausos e afagos dos outros por vivermos uma vida que eles invejam. Vida em que se vive o prazer do outro, mas a dor é sua mesmo.