Somos Todos Canalhas
Intervenção 13 Clóvis
Intervenção 13
Clóvis
Por defender esta razão desafetada, como lembra o professor Júlio, Kant acreditava que a única coisa boa em si mesma é a boa vontade. O que nos permite concluir que é essa vontade a matriz de toda atribuição adequada de valor. Essa vontade, por sua vez, diz respeito à capacidade racional para identificar o que é certo. E o que é certo fazer se converte num dever. A restrição da moralidade a esse juízo que advém do uso correto da razão quando trazido para o cotidiano, quando analisado no calor da vida, nos leva a conclusões pelo menos curiosas.
Vamos imaginar que você está dentro do seu automóvel e presencia uma agressão que acontece na calçada. A sua chegada assusta os agressores e você se vê diante do agredido ferido, ensanguentado. Você então coloca a vítima no seu carro e a leva para um hospital. Dez sobre dez das pessoas que ouvirem esse relato dirão que você agiu muito bem. Avaliarão como justa a sua conduta. Mas justamente para Kant a avaliação do que você fez não esgota a questão moral. Porque mais importante do que a ação, a materialidade da conduta, é o motivo pelo qual você fez o que fez. A razão de ter agido como agiu.
Suponhamos que você tenha colocado aquela pessoa ferida no seu carro por compaixão, que você tenha se entristecido com a tristeza dela e por isso tenha sido movido por um impulso de alegrá-la. Para poder se alegrar também. Essa motivação, segundo Kant, compromete a avaliação positiva daquela conduta. Porque, para ele, uma conduta moralmente positiva não pode ter como causa um afeto, um sentimento de circunstância, e sim uma atividade do espírito, uma ponderação racional, um respeito ao dever, ao que deve ser feito.
Assim, o que tem que ser realmente considerado para ultimar uma avaliação moral, para atribuir algum valor a uma conduta, não é o que foi realizado pelo agente. Não é tampouco o que aconteceu depois, ou seja, os efeitos daquela conduta. E sim por que o agente fez o que fez. O fundamento que norteia a sua decisão.
Dessa maneira, imaginemos outra situação. Você encontra o seu pior inimigo em situação semelhante, em dificuldade física. Por se tratar do seu mais forte desafeto, essa dificuldade física pode ser causa de alegria para você. Se a conduta dependesse dos afetos, nesse caso você o deixaria sucumbir. Mas como a conduta depende de uma certeza racional que vai além da circunstância dos afetos, você oferece ajuda, tal como fez no caso da compaixão. Intervenção 13