Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 60 de 89

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Intervenção 3 Clóvis

Intervenção 3

Clóvis

 

Bem lembrado, Júlio. Quando a teoria utilitarista nos recomenda considerar o valor das coisas enquanto instrumento para a felicidade, seja de maneira mais imediata seja de maneira indireta, isso pode nos colocar diante de alguma complexidade.

Tudo pode parecer simples numa relação com dois elementos que se seguem cronologicamente. Assim, eu como um prato de mocotó, sem bucho, e com dois zoião gema mole, e fico feliz. Neste caso, o mocotó tem impressionante valor instrumental. O mesmo raciocínio é empregado para as condutas humanas. Um palestrante sedutor é abraçado carinhosamente – ao final de uma performance – por uma jovem apetecível. Além do abraço, ela se desmancha em elogios. O palestrante flutua. Aqui, tanto o abraço quanto os elogios valem um mocotó. Até aqui, tudo simples.

A complexidade aparece, por exemplo, quando enfrentamos situações em que as coisas do mundo nos causam tanto prazer quanto dor. Isso pode acontecer em instantes diferentes. Uma ida ao dentista lhe causa dor. Então, num primeiro momento, valor instrumental negativo. Restaurado o dente, desaparece a dor. Valor instrumental positivo. Um único tratamento. Um único dentista. Uma única broca. Dor primeiro, prazer depois. Uma cópula com orgasmo de grande intensidade seguido de doença venérea não letal. Por que não letal? Porque o exemplo é meu. Quando você crescer, escreva seu próprio livro.

No meu caso, já chegando nos 50, esses orgasmos fazem parte de um mundo discursivo, semiótico, de representações. Um exemplo de maior probabilidade vital é o exagero alimentar. Durante a degustação, prazer. Imediatamente após e por vezes durante longas horas, dor. Para outros, a complexidade se objetiva na degustação alcoólica: alegria e tontura imediata e ressaca posterior. Alcoolismo, talvez. Para outros ainda, o consumo de drogas e seus efeitos imediatos prazerosos e as consequências nefastas da dependência.

Nestes casos, a avaliação utilitarista do valor requer um balanço, um contraste. No caso do dentista, poderíamos ponderar que a dor a suportar na cadeira, no momento do tratamento, é de duração muito menor do que o prazer do dente reparado algum tempo depois. E, portanto, nessa espécie de contraste julgaríamos a ida ao dentista como de valor positivo. Mas poderíamos também observar que a dor sofrida durante o tratamento é muito mais intensa e conscientemente percebida do que o prazer obtido após. Como quantificar comparativamente duração e intensidade?

Mas as situações podem se tornar mais complexas. Quando, por exemplo, cursamos uma faculdade que não nos agrada. Sentimos tédio, enfado, sensações desagradáveis. Mas a conclusão desse curso nos traria um diploma, um emprego digno, um bom salário e, portanto, condições para comprar o que nos dê prazer e felicidade. Veja que aí a situação difere um pouco da do dentista, porque cinco anos de curso universitário implicam um tempo de sofrimento considerável para que uma suposta felicidade pelo emprego alcançado possa advir.

Prazer e dor podem também ser sentidos simultaneamente. É o caso da câimbra num momento de orgasmo. A defesa de um pênalti acompanhada de um pinçamento no ciático. Um beijo com cólica. Uma feijoada deliciosa ao som de uma música ruim. Mulher linda com chope quente. Cinema bala com pipoca murcha. Etc.

Para definir os pesos e as medidas de todas essas equações, Mill se mostra muito mais um discípulo de Epicuro do que um herdeiro dos cultos de Dionísio ou um porta-voz antecipado da pós-modernidade. Ao estabelecer essa relação entre prazer e dor, Mill tem na felicidade uma concepção próxima da ataraxia, da tranquilidade, certamente distante de todo prazer intenso e obsessivo que possa ensejar dor futura.

A ideia de que o prazer é o único bem intrínseco foi consagrada na história do pensamento com o nome de hedonismo. O sentido primeiro deste termo não se confunde com o atual, associado ao consumo desenfreado e à busca de prazer a qualquer preço. Tanto para Epicuro quanto para Mill essa busca deve ser revestida de alguma moderação. Em outras palavras, é preciso buscar prazeres que permitam continuar tendo prazer. Por essa razão, são enaltecidos os prazeres do intelecto, da alma, ligados à atividade intelectiva. Inversamente, as coisas que venham a despertar um prazer que destrói a capacidade do corpo de ter prazer possuem evidentemente valor negativo.

Assim, tanto em Epicuro quanto em Mill vigora uma ideia de sustentabilidade do prazer. É bom aquilo que proporciona um tipo de prazer que não compromete a capacidade de continuar alcançando-o. Eis, portanto, uma espécie de apego à simplicidade – aquilo que Epicuro vai chamar de prazeres naturais e necessários, estritamente relacionados com a mera sobrevivência. Pois toda sofisticação pode prostituir o corpo e impedi-lo de voltar a ter prazer com coisas simples. E assim uma margarina no pão ou um molho sofisticado podem inviabilizar o deleite com o pão seco ou com a carne sem molho.