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Intervenção 8 Júlio
Intervenção 8
Júlio
Após o panorama delineado pelo colega, venho dar o contra. Em certo ponto de vista, a ruptura entre o pensamento medieval e o pensamento moderno praticamente não existe. Refiro-me à ideia de esforço – o esforço, chamado de enkrateia pelos gregos, que também pode ser traduzido como o esforço de si para consigo mesmo. Aquele empenho típico das pessoas disciplinadas. Pois ele se mantém como uma espécie de imperativo moral das condutas. É preciso ter esforço para domar-se. Encontramos discursos que ressaltam essa necessidade de esforço para consigo mesmo em Platão e nos discursos religiosos medievais. E a modernidade, nesse aspecto, não será exceção.
As justificativas do esforço, porém, mudam. Em especial quanto à ideia de natureza. Agora, a ideia de liberdade prevalece sobre uma concepção cósmica de natureza. O universo deixa de ser considerado algo finito e, portanto, ordenado em sua finitude, e passa a ser considerado algo infinito. Se não há uma natureza cósmica, talvez sequer exista uma natureza humana que nos constranja a agir de determinada maneira; e, ainda que existisse uma natureza, ela não teria força suficiente para se impor sobre a nossa razão. Portanto, no mínimo, o que nós teríamos de dispositivo de atuação livre seria a nossa razão. A modernidade, então, de certa forma, consagrará a ideia de uma razão livre, de uma razão autônoma, também do grego autonomos. Auto, si mesmo. Nomos, lei. Uma razão capaz de criar a lei para si mesma. Mas ainda assim o conflito entre os afetos, as paixões e a razão permanecerá.
Dois autores podem nos ajudar a compreender isso melhor. O primeiro é o inglês Thomas Hobbes. Ele acreditava que, como não há um cosmos organizado por Deus, ou, como prefere o pensamento religioso, uma natureza divinamente organizada a partir de leis criadas por esse legislador onipotente, onisciente e infinitamente bom, então não seria possível também falar de uma moral natural. Aquilo que chamamos de moral só poderia ser algo inventado. É coisa nossa. Não é coisa de Deus nem da natureza. Mas a troco de quê nós inventaríamos a moral?
Hobbes acreditava que, por natureza – e aqui me refiro à natureza no sentido mais restrito mesmo, de lugares selvagens –, o homem obedeceria, por constrangimento físico, única e exclusivamente a uma lei: a da força dos animais uns sobre os outros. Porque, afinal de contas, a natureza tal qual se percebe se mostra organizada numa luta eterna entre presas e predadores. De maneira tal que parece haver uma hierarquia determinada pela potência do corpo de cada um dos animais.
E assim, na luta do coelho contra o leopardo, mil embates, mil vitórias do leopardo. A natureza foi cruel com o coelho, não o dotando de armas capazes de fazer frente ao leopardo. Ao coelho só resta a fuga, só lhe restam pernas ágeis e o hábito de entocar-se para se esconder de seus predadores. Ora, onde estaria o homem nessa cadeia, segundo Hobbes? No topo. Carecemos de pernas ágeis como as do coelho. Também não temos garras afiadas e patas fortes e potentes como as do leopardo. Mas em compensação temos a razão, a inteligência, a astúcia. E, por isso, não precisamos encarar com nossos recursos físicos minguados o poderoso leopardo. Nós criamos estratagemas, armadilhas, fabricamos armas e assim vencemos não só o leopardo, mas todos os grandes predadores da natureza. Nessa cadeia, o homem como espécie está lá em cima. E mais. Estamos lá em cima e empatados, todos nós, com os nossos semelhantes. Porque agora aquilo que nos desiguala por natureza, as nossas habilidades, a nossa força física, a nossa inteligência, de pouco vale nessa luta. Não é preciso ser um gênio para conseguir matar alguém. Todos nós temos razão, inteligência e capacidade cognitiva suficientes para cometer um homicídio. Somos igualmente mortais uns com relação aos outros. Por um lado, somos livres, porque não há uma lei na natureza que nos constranja e, por outro lado, somos iguais, porque temos igual capacidade homicida.
Mas esse mundo de homens livres e iguais é ruim, porque ele é sem regras, sem lei, sem moral, sem sociedade; onde cada um de nós agiria única e exclusivamente de acordo com os nossos desejos absolutamente singulares. Cada um de nós disputa contra todos os outros bens igualmente desejáveis e escassos, em uma guerra de todos contra todos, cada um por si. Mas para você que luta sozinho, esse monte de indivíduos é um verdadeiro exército contra o qual você não tem aliados. Em que poderia resultar o embate de um indivíduo sozinho contra todos os outros? Certamente em morte violenta. Este final doloroso, acreditava Hobbes, é uma ideia que você pode antecipar. E, quando o fizer, concordará que as consequências da liberdade e igualdade não são das melhores. E essa percepção da sua situação despertaria um afeto: o medo.
Para Hobbes, toda moral é consequência de um afeto, de tal maneira que nós tenderíamos a dizer que algo é bom só porque nos alegra e que algo é ruim só porque nos desagrada ou nos entristece. Mas para que haja a moral, ou seja, todos nós cooperando pela manutenção de normas inventadas, seria preciso um afeto comum, uma ligação afetiva qualquer que nos unisse, que nos igualasse. Ele acredita que esse afeto é o medo da morte violenta. O medo que seria igualmente medonho para cada um de nós, que seria capaz de nos fazer abrir mão da liberdade e da igualdade naturais. Por medo da morte violenta, abriríamos mão da liberdade e da igualdade. Abriríamos mão da liberdade para viver em sociedade, aceitando a existência de regras que tornem a convivência possível, que elimine a guerra de todos contra todos. E, abrindo mão da igualdade, instituiríamos alguém como sendo mais forte do que nós, como soberano, como Estado, para que tivesse a função de manter a ordem social, de impedir o retorno da situação de liberdade absoluta e caótica geradora da morte violenta.
Para Hobbes a moral nasce de uma escolha racional, mas provocada pelos afetos, e que tem como condição de sua manutenção a existência desses afetos. São os afetos que determinam o modo como nós atribuímos valor não somente à liberdade e à igualdade, mas a todas as outras coisas. Há também um pouco de razão a interferir nessa ponderação sobre o valor das coisas, mas Hobbes acredita que a razão esteja a serviço da vida possível, da convivência, da autopreservação, enquanto os afetos seriam manifestações puramente egoístas. Para Hobbes, portanto, a moral tratar-se-ia de uma imposição de razões públicas sobre emoções privadas.
Outro autor que eu queria destacar é Jean-Jacques Rousseau, por quem Kant nutria assumida admiração. Kant, ao contrário de Hobbes, não tinha uma visão tão sombria assim do homem. Pelo menos, não à primeira vista. Rousseau vê tanta iniquidade no mundo, tanta violência, tanta vilania e se pergunta: “O que foi que aconteceu? O que nos fez assim?” Como homem moderno, ele não aceitaria simplesmente que Deus nos tivesse feito assim. Como homem religioso, ele também não poderia aceitar que Deus fosse o responsável pelo mal. Rousseau vai desenvolver este problema a partir de um concurso literário da academia de Dijon, que propunha o seguinte tema: será que as ciências e as artes têm nos tornado pessoas melhores? Eis um dilema ético interessante. Vemos as ciências e a tecnologia avançando. Imagine nossa capacidade tecnológica de produção de alimentos. Graças à ciência e à tecnologia conseguimos produzir alimentos em solo até pouco tempo considerado infértil. Conseguimos produzir legumes e frutas cada vez maiores. E, se por um lado, cada vez mais aumentamos nossa capacidade de produção de alimentos, por outro, mais o mundo parece encarar a fome. Então, de que adiantaria todo esse aparato tecnológico se nós, os criadores e aplicadores dessa tecnologia, continuamos os mesmos seres mesquinhos?
Provocado por esta questão, Rousseau dirá o seguinte: nós todos temos dois princípios inatos que moldam o nosso espírito. Um deles é a razão, entendida como a capacidade de cálculo estratégico, ligado à sobrevivência. Mas há outra disposição, a piedade, explicada por ele através de exemplos. O que seria a amizade e o amor se não uma forma de piedade? A piedade é tida por Rousseau como um afeto altruísta. Afeto nutrido pelo outro. O mesmo ser humano que tanto nos desencanta, se mostrando capaz das mais terríveis vilanias, é o mesmo que nos encanta quando se mostra capaz de atos heroicos. É alguém capaz de matar, mas é também alguém capaz de dar a vida por uma pessoa que não conhece.
A imagem de um homem egoísta, que só por medo criaria a moral, parece a Rousseau reducionista demais. Não explicaria a complexidade inerente ao nosso comportamento, as nossas disposições racionais e afetivas. Para ele, se nós agíssemos em conformidade com nossa natureza racional e piedosa, agiríamos todos de forma bastante razoável. O estado de natureza não seria um estado de guerra de todos contra todos. Seria a vida do bom selvagem, harmonioso com a natureza e com seus semelhantes. Mas nós não somos assim, e não o somos porque nos tornamos outra coisa. Rousseau acredita que nos tornamos seres mesquinhos como consequência de uma triste história.
Tudo começou quando alguém inventou a propriedade privada e disse: “Isso é meu.” E assim foi estabelecida a escassez do que antes a natureza disponibilizava em abundância. Escassez provocada por um ato de ganância. A partir desse ato de ganância inventamos todas as outras coisas que nos tornam seres desiguais e conflitantes. Aqui Rousseau se refere à desigualdade social. Inventamos ricos e pobres, antes inexistentes. As desigualdades que causam nossos conflitos não são as desigualdades naturais. Nossos conflitos não são necessariamente os conflitos dos fisicamente fortes contra os fracos. É a opressão do socialmente forte contra o socialmente fraco. Força social que não é natural, e sim inventada. A vida ruim, indigna, seria essa vida inventada a partir da propriedade da natureza. Seríamos todos escravos das desigualdades que nós mesmos inventamos e, como inventores de tal opressão, poderíamos reinventá-la em outros termos. O que o filósofo propunha não era uma revolução, mas uma transformação dos costumes através da educação. Uma transformação em que a razão e a piedade se imporiam sobre as falsas ideias. Razão e piedade criariam leis morais. Rousseau explica que tal lei moral seria produto da vontade geral, que, para ele, não corresponde à vontade da maioria, tampouco à vontade de todos. A vontade geral seria uma vontade ideal. É o querer ideal, a deliberação moral que qualquer um de nós teria se o fizesse movido por razão e piedade ao mesmo tempo, e não apenas por uma razão que inventa formas de oprimir, abrindo mão de sua piedade.
A obediência à lei fruto de razão somada à piedade não seria um ato de submissão, mas de liberdade. Quanto mais a sociedade possuísse leis, jurídicas ou morais, oriundas dessa vontade geral, mais livres seríamos, mesmo quando nos opuséssemos a essas normas, mesmo que fôssemos obrigados a segui-las. Se não as obedecemos por vontade própria, a ponto de ser necessária a força para nos constranger, é porque somos capazes de agir contra a nossa piedade. E, portanto, impor a lei fruto da vontade geral seria impor sobre nós a nossa própria natureza.
Como escrevemos há pouco, num mundo pensado como o cosmos o animal no seu habitat tem a vida que vale a pena. Lá ele se desenvolve, ele floresce. E fora do habitat, entristece e perece. Nós somos capazes de viver fora de nosso habitat, que é a convivência racional e piedosa. É como se nós teimássemos e não percebêssemos com facilidade que deveríamos viver a vida com razão e piedade. E nos obrigar a isso seria como levar um animal de volta ao seu habitat, um animal já desacostumado a ele. Animal de zoológico que é reintroduzido na selva e que, num primeiro momento, a estranha.
Ambos os autores modernos, tanto Hobbes quanto Rousseau, falarão de uma moral inventada, criada por uma deliberação racional, mas essa razão não aparece completamente divorciada dos afetos. Divorciar os afetos da razão é um problema do pensamento moderno. Uma dificuldade a ser enfrentada. Alguns apresentam soluções mais convincentes do que outros, mas nenhuma das soluções parece resolver o dilema de que, se somos seres racionais, por que tantas vezes desprezamos essa mesma razão? Se somos seres piedosos, por que tantas vezes agimos impiedosamente? E vice-versa: se somos maus e irracionais, como explicar a piedade, os heroísmos e o bom senso?