Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 59 de 89

Páginas do PDF

Somos Todos Canalhas

Intervenção 2 Júlio

Intervenção 2

Júlio

 

Mill me lembra outro grego antigo, outro que Platão odiava: Demócrito. Ele era um materialista radical. Não acreditava em nada que não fosse matéria e, portanto, aquilo a que Platão chamava alma, responsável pelos nossos pensamentos e sensações, não poderia ser algo imaterial e imortal. Só poderia ser matéria. Deveria ter massa e ocupar lugar no espaço. Ser corruptível e perecível. Ele vai além e explica do que todas as coisas materiais são feitas. Algo que ele chamou de átomo – literalmente, algo não divisível.

Tomemos alguma coisa qualquer, como um rabanete, por exemplo. Se o dividirmos e logo após dividirmos sua metade e assim por diante, chegará um momento em que essa operação não será mais possível. É o momento em que se encontra algo que não pode mais ser dividido. Esse é o átomo. Somente existem dois tipos de átomos. Uns redondos e lisos e outros não redondos e não lisos. Os primeiros, por suas características de circularidade e lisura, são móveis e são responsáveis pela constituição das coisas moles que existem na natureza. Já os segundos, de formas irregulares e ásperos, são responsáveis pela constituição das coisas duras. As diferenças de dureza em suas várias nuances são causadas por diferentes misturas entre átomos bolinha e átomos rugosos.

À movimentação dos átomos redondos em nós, Demócrito chama de sensação e pensamento. Não explica como o movimento dos átomos produz sensações e pensamentos. Enquanto houver corpo, haverá sensações e pensamentos. Alguns movimentos desses átomos redondos geram sensações prazerosas, outros movimentos geram sensações desprazerosas. Os valores que atribuímos são consequência do que sentimos a partir dos movimentos atômicos, e tudo o que importa são as boas sensações. Demócrito foi um antecessor do utilitarismo.