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Intervenção 11 Júlio
Júlio
Outro exemplo, com a ressalva de que algumas adaptações se fazem necessárias, pode ser encontrado no mundo corporativo. Uma espécie de doutrina que norteia as operações de RH – ou de gestão de pessoas, como parece ser o termo da moda – é a ideia de que o gestor de pessoas deve ser capaz de identificar as habilidades de cada um para poder colocar o homem certo no lugar certo. Ou, para dizer o mesmo, mas numa língua conhecida pelo pessoal do mundo corporativo, the right man in the right place.
Guardadas as devidas proporções, trata-se da crença de que as pessoas possuam um lugar natural para ocupar, o que permite hierarquizar as pessoas, uma vez que existem postos nobres e postos de menor importância a serem ocupados. As semelhanças acabam por aí. É que Aristóteles, quando expõe a sua doutrina, o faz como uma espécie de aconselhamento moral. É o discurso que deságua no conselho de que: “Olha, você deve conhecer a sua natureza para que, em a conhecendo, seja capaz de buscar o seu devido lugar, para que você direcione as suas ações até o local da existência que lhe convém. O norte moral da sua conduta em direção à vida adequada deve ser suas habilidades. Conheça-as e as respeite, portanto.”
No caso do discurso corporativo, não se trata de aconselhamento moral ao indivíduo livre para deliberar e ajustar a própria existência. É uma mensagem ao gestor dizendo: “Conheça os outros, direcione os outros.” Há uma diferença muito grande entre você conhecer suas habilidades e ter a liberdade de direcionar-se para a vida adequada e outra pessoa identificar alguma habilidade em você e direcioná-lo à posição adequada. Quando você guia a própria existência em razão das suas habilidades e das suas alegrias, tende a encontrar um lugar que lhe alegra. Quando outro é quem o direciona, a habilidade que lhe interessa e que, portanto, tem maior valor para você nem sempre é considerada. Avaliam-se as virtudes e locais adequados a partir da alegria do gestor, e não de quem possui as virtudes e os afetos.
Quando Aristóteles aplica à política, à organização social e à ética os mesmos princípios que norteiam a física, ele o faz porque considera o mundo político e moral indistinto do mundo da natureza, pelo menos no que diz respeito a essa concepção de valores. Haveria uma natureza existencial do homem e um lugar natural, assim como uma organização política que seria também natural. Não existe a ideia, por exemplo, de que a polis seja uma invenção. Um lugar inventado de determinada maneira, mas que poderia ter sido inventado de outra completamente diferente. Não há a ideia de que a nossa vida seja também, de alguma forma, inventada. Não inventamos gostar de carambola ou ser hábeis em ioiô, apenas o somos, queiramos ou não. Nossas virtudes não estão disponíveis à la carte. Elas são prato feito e servido quando do início de nossa existência.
Outra questão se impõe. Havendo um modo de existência natural como as virtudes e, ao mesmo tempo, constatando que somos seres inteligentes e criativos, ou nossa inteligência e criatividade são também parte de uma ordem natural – e, neste caso, toda a nossa criatividade seria apenas uma ilusão, pois estaríamos seguindo uma ordem que nos teria sido imposta pela natureza ao inventar coisas – ou então somos de fato não apenas criativos e inteligentes, mas também livres da natureza quando exercemos tal habilidade e, portanto, criamos coisas em desarmonia com a ordem natural das coisas. Autônomos para criar coisas ruins ou autômatos que apenas possuem a ilusão de criar algo, mas que apenas realizam uma ordem natural. Imagine um jogo de peteca e alguém dotado de extraordinária habilidade nessa modalidade. Poderíamos perguntar para que a natureza se valeria dessa habilidade de peteca. Qual é a contribuição que o habilidoso jogador de peteca dá à harmonia do universo se a peteca e o jogo nela centrado foram inventados? Será que a peteca cumpre um importante papel na ordem natural, de maneira que, sem competições de peteca, um dilúvio cairá sobre um continente qualquer? O exemplo pode parecer exagerado, mas percebam se não fazemos o mesmo quando se trata da oposição natural versus artificial? Não damos mais ou menos valor às coisas por serem naturais ou artificiais? Vendemos suco de fruta pasteurizado e recomposto em caixinha, com aromatizantes e acidulantes e ainda estampamos no rótulo a palavra “natural”. Para quê, se não para dizer que ele vale mais do que os outros, também encaixotados, aromatizados e acidulados, mas assumidamente artificiais? Por outro lado, quando se trata de medicamentos, a opinião dominante parece ser a de que quanto mais manipulação laboratorial, melhor a droga, enquanto os remédios naturais são associados a crendices, curandeirismo, modismos e uma boa dose de ingenuidade de seus fãs. O importante é perceber o quanto a ideia de ordem natural como uma referência para valorar qualquer coisa não é apenas uma ideia estranha de um grego há muito morto. É algo presente em nossas formas atuais de atribuir valor.
Voltando ao primeiro exemplo, poderíamos dizer que um gestor avaliando as virtudes de outro para dizer em que lugar “natural” ele deveria estar na empresa só faz sentido sob a condição de naturalizar a organização da empresa. Dentre outras coisas, é para isso que servem os manuais de administração de empresas, que demonstram e explicam um determinado modelo e dizem por que ele é superior aos outros, como se houvesse superado os demais num embate evolutivo das formas de se conviver e trabalhar, como se fosse a natureza aperfeiçoada por ela mesma. Talvez, para bem julgar alguém, devêssemos avaliá-lo não apenas segundo uma habilidade específica em razão de uma natureza precisa onde desempenharia uma função qualquer. Talvez devêssemos avaliar outras virtudes em outras naturezas. Ou ainda, quem sabe, segundo apenas aquelas virtudes verdadeiramente adequadas à natureza, e não as coisas antinaturais inventadas, desde que fôssemos capazes de dizer com precisão o que é e o que não é natural em nosso intelecto.