Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 42 de 89

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Intervenção 9 Clóvis

Intervenção 9

Clóvis

 

O exposto pelo colega me faz pensar nas seguintes situações. Imaginemos a mãe que amamenta o seu bebê. O pai que leva sua filha de 12 anos à escola e o marido que raspa a maçã para que a esposa impossibilitada de engolir pedaços inteiros da fruta possa se alimentar. Três situações: a amamentação, a condução e a alimentação terapêutica. Poderíamos imaginar que a mãe que amamenta seu filho o faz por um dever – o dever de alimentar sua cria; que o pai que conduz a filha à escola o faz por um dever de prover-lhe educação; e que o marido que raspa a maçã o faz pelo dever conjugal.

Mas se sugeríssemos que as iniciativas da mãe, do pai e do marido são movidas pelo dever, talvez houvesse discordância. Os três, portanto, responderiam não. “Eu amamento por amor.”

“Eu conduzo minha filha à escola por amor.” “Eu raspo a maçã por amor.” Em outras palavras, esses gestos, essas condutas, essas ações aconteceram sem que seus agentes cogitassem sobre um eventual dever. Por isso, para Kant, estas ações não são propriamente morais.

Não que os três indivíduos citados tenham agido de maneira completamente instintiva. Talvez a mãe tenha pensado no melhor lugar para dar de mamar. Talvez o pai tenha pensado no percurso até a escola com menos trânsito e o marido tenha pensado no talher ideal para a raspagem da maçã. Nos três casos, houve pensamento, intelecção. Mas esse pensamento não incluiu fórmulas de obrigação como “eu tenho que amamentar”, “eu tenho que levar a filha à escola”, “eu tenho que raspar a maçã”. Neste caso, o amor substituiu o dever.

Esta reflexão nos permite esclarecer a relação preciosa entre o amor e a moral. O primeiro é sentimento; o segundo, pensamento. Não que no ato de amar não haja momentos de intelecção. Não que no respeito aos deveres morais não haja momentos de afeição. Mas a mãe que dá de mamar ao bebê o faz porque a alegria do seu filho conta demais para ela. O pai que leva a criança à escola o faz em nome do futuro imaginado da sua cria, das alegrias a viver não só naquela manhã de atividade escolar como também num desenvolvimento intelectivo proporcionado pela escola, que permitirá conquistas futuras. E o marido que estende a colher e permite à esposa alimentar-se, isso nada tem a ver com obrigação.

O que há de curioso é que existe a possível coincidência entre o que indica um dever moral como comportamento e o que indica o amor como comportamento. Poderíamos assim estabelecer um paralelo entre a conduta daquele que age por amor e a conduta daquele que age por um princípio que se obriga a respeitar. Talvez, por isso, só o amor garanta essa conformidade da intenção que motiva o ato com o espírito de uma lei moral. Só o amor parece assegurar a unidade da inclinação natural amorosa com a finalidade moral. O amor torna inútil a obrigação de se submeter a prescrições imperativas quando ele existe. Veja o que diz Matheus 6: “Privem-se de praticar vossa justiça diante dos homens para ganhar junto a eles destaque porque desta forma não terão nenhuma recompensa junto a teu Pai, que está nos céus. Assim, quando der esmola, não faça como os hipócritas, almejando ser glorificados pelos homens. Para você, quando der esmola, que tua mão direita ignore o que faz a mão esquerda. Assim que tua esmola seja secreta e teu Pai que vê no segredo te devolva.”

Assim, quando a mãe ama o bebê, a lei que recomenda amamentação é desprezível. Quando o pai ama a filha, a lei que recomenda a educação é inútil. Quando o marido ama a esposa, a lei que recomenda cuidados terapêuticos é desnecessária. Poderíamos até dizer que se amássemos as pessoas como amamos nossos filhos pequenos é bem possível que tribunais, polícias, exércitos e instrumentos de conflito e agressão fossem completamente desprezíveis.

Hegel, num texto intitulado O espírito do cristianismo e seu destino, comenta o que acabamos de sugerir da seguinte forma: “Na descrição deste reino dos céus não figura a supressão das leis, mas elas devem ser respeitadas por uma justiça que seja outra e mais total do que a justiça da fidelidade ao dever.” A incompletude das leis encontra sua plena realização. Jesus mostra então o princípio desta realização para muitas leis. Este princípio mais rico pode ser chamado de inclinação a agir como as leis indicariam, a unidade da inclinação e da lei graças a qual esta perde a sua forma de lei. Esta concordância com a inclinação é chamada de pleroma – preenchimento da lei.