Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 3 de 89

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Intervenção 1 Júlio

Intervenção 1

Júlio

 

Olá, Clóvis. Podemos pensar a questão de outra maneira, a partir do exemplo de alguém que tenha dificuldades em julgar. Imagine uma mulher portadora de belo nariz e olhos que geralmente lhe chamariam a atenção, mas que também é dona de uma boca esquisita, deformada por botox, e de orelhas marcadas por uma falta de formosura indescritível. Em tal situação, nossos olhos recebem mensagens estéticas discrepantes. Considerada parte a parte, poderia se dizer que existiriam algumas bonitas e outras feias, mas, se analisado o conjunto, essa série de informações divergentes dificulta muito o julgamento estético. Em resumo, nesta situação você simplesmente não sabe dizer se aquela pessoa à sua frente é bonita ou não. Acho que todo mundo já passou por isso em algum momento da vida. De repente, se vê instado a realizar um julgamento e se sente por um motivo ou outro incapaz disso.

Este exemplo nos permite ponderar sobre a complexidade de um gabarito que nos permita realizar um juízo estético, algo banal que realizamos aos montes todos os dias. Ele deve ser capaz de dar conta até mesmo das discrepâncias. Sem um gabarito que consiga conciliar informações tão distintas umas das outras; que consiga juntar, num critério único de valoração, o valor do nariz belo, dos olhos bonitos e da orelha formosa; sem um gabarito adequado, enfim, talvez realmente esse julgamento se torne impossível.

Podemos ainda pensar de outra forma. O caso mais óbvio de julgamento talvez seja o do juiz, que diante de um caso concreto não sabe muito bem o que fazer. Por dois motivos: ou ele não entendeu bem o caso e, por isso, não se sente seguro para julgar porque não sabe ao certo o que está em julgamento – e nesse caso trata-se de um problema de interpretação dos fatos a serem valorados – ou então ele tem dúvida quanto à lei, quanto ao critério que deveria balizar seu julgamento. O fato é que, seja pela incompreensão do objeto à sua frente ou pela inexistência de um critério adequado de julgamento, um gabarito, o ato de se atribuir valor a alguma coisa torna-se impossível.

Mas pode haver ainda outra ordem de dificuldades, o que de certa forma permite ampliar um pouco as nossas questões. Talvez a mesma confusão de julgamento ocorra não porque não tenhamos um gabarito adequado para julgar coisas de naturezas tão distintas ao mesmo tempo. Talvez nós tenhamos muitos gabaritos aplicáveis ao mesmo tempo. Então, algumas situações, se consideradas sob a perspectiva de um gabarito A, têm determinado valor, e se consideradas sob a perspectiva de um gabarito B, têm valor completamente diferente.

Já que você, caro Clóvis, falou em julgar provas de alunos, lembro também de uma vez em que uma aluna veio falar comigo. Ela havia tirado uma nota muito baixa e, por isso, me interpelou: “Professor, por que minha nota é tão baixa? Você não gosta de mim?” E eu disse a ela: “Gosto muito de você. Acho que no fundo até te amo. Estou certo de que a nota que você mereceria pela pessoa que é só poderia ser dez. Mas, tendo em vista a prova que você realizou, a nota é essa aí mesmo, chinfrim. Sua prova é ruim. Não está de acordo com o gabarito.” A prova era de ética. Realmente, há algo de pessoal na nota. Afinal, o que pensar de alguém que tira 3 em ética? Neste exemplo, existem dois gabaritos. O da aluna, que acredita que a prova demonstra não apenas seu desempenho como estudante, mas de certa forma apresenta um valor sobre quem ela é, e, por outro lado, o do professor, que emite o julgamento baseado na comparação da prova com o modelo.

Todos esses exemplos reforçam a ideia de que realmente só é possível julgar ante a existência de um gabarito, ainda que ele não seja único, o que nos leva a um segundo problema: determinar não só de onde vem o gabarito, mas talvez de onde vêm os gabaritos.