Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 37 de 89

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Intervenção 6 Júlio

Intervenção 6

Júlio

 

O colega traz à baila questionamentos fundamentais e, sem dúvida, inquietantes. Deus, além de perfeição, seria também puro amor. Amor que tem como condição de sua divina perfeição não ser condicionado. Deus ama e ama a todos de forma incondicional. Nós, como de resto toda a natureza, não somos Deus, mas suas criaturas. Assim sendo, nós até comungamos com Deus alguns atributos, dentre eles o amor. Porém, nosso amor é diferente do amor de Deus. Enquanto este é ilimitado, infinito e incondicionado, o nosso é limitado, finito e condicionado. Amamos a partir de certas condições. Desde que sejamos correspondidos. Desde que não sejamos sacaneados ou pelo menos muito sacaneados. Amamos com infinitos “desde que”, com infinitos “senões”.

Ora, mas esse amor divino funciona no cristianismo tal como a própria vida de Jesus, ou seja, de modo exemplar. Aqui no mundo da natureza, no mundo humano, no mundo de pessoas com sentimentos impuros e razões tortas, esse amor ágape, amor incondicional, não existe. Mas serve para nós como amor exemplar. É o amor que de fato não sentimos. O que sentimos é amor escasso. Amor condicionado. E, portanto, esse amor ágape, esse amor cristão, não é um sentimento, mas um modelo. Amor que não pode ser copiado como afeto, mas que pode ser entendido racionalmente.

Nenhum de nós ama como Deus. Nenhum de nós ama o outro nas suas imperfeições, como Jesus nos apontou, como uma espécie de princípio moral. “Amai-vos uns aos outros”. Não amamos assim, mas somos capazes de compreender esse amor, compreender e aceitar o outro como ele é. Na sua imperfeição, na sua diferença, na sua ausência de divindade, na sua torpeza. E somos capazes também de, seguindo o exemplo da compreensão desse amor exemplar, agir como quem ama, ainda que não haja o afeto. Quem ama respeita. Quem ama cuida. Quem ama preocupa-se. Podemos, portanto, escolher cuidar e respeitar. Podemos escolher racionalmente, numa deliberação moral livre, agir inspirados no modelo do amor incondicional.

Para Santo Agostinho, é essa a natureza do livre-arbítrio. Capacidade racional de entender o amor divino e agir como quem ama. Pode ser um amor cínico. Amor que é atitude planejada, pensada, mas é melhor do que se de fato agíssemos inspirados única e exclusivamente nos nossos afetos. É como a escala de valores, portanto. Nós deveríamos valorar a partir desse modelo exemplar de tal maneira que aquele que age, aquele que se manifesta em conformidade com esse modelo ideal de amor, agiria bem. Ao passo que aquele que age em conformidade com os afetos que temos, aqueles afetos muitas vezes baixos e mesquinhos, age mal. Do exemplo nasce também um critério de avaliação de valores. Não um gabarito. Apenas um princípio de avaliação. Um princípio de valoração de atitudes, de pensamentos e de condutas.