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Intervenção 3 Júlio
Intervenção 3
Júlio
É importante observar, Clóvis, que valores supremos como Deus e o bem são apresentados por Platão como essências. Deus, por exemplo, existe independentemente dos homens. E, da mesma maneira, o bem. Este, portanto, não é tratado por Platão como uma atitude ou um atributo, ele é algo que existe como uma substância cujo lugar é o mundo além do mundo sensível. Mundo metafísico.
Então, podemos falar de duas ideias de fontes de valor ou de grandes gabaritos representados por estas substâncias ideais. Uma delas é a própria substância que existiria lá, no outro mundo, afastado do homem. A outra são as ideias de Deus e do bem contidas na alma de cada um de nós e esquecidas pela presença do corpo desejante.
Para que a lembrança do bem prevalecesse e o homem tomasse atitudes virtuosas, seria preciso que fossem deixados de lado as paixões, os desejos e os sentimentos. Portanto, a imagem que se tem a partir desta concepção idealista de Platão é a de um homem em luta consigo mesmo. Por exemplo, alguém inspirado no bem supremo, de onde poderia se desdobrar, por exemplo, um valor como saúde ou cuidado de si, está plena e racionalmente convicto de que se encontra acima do peso e, portanto, de que necessita fazer dieta. Mas, por outro lado, há algo nele que ao ver um pudim diz: “Nossa! Que pudim gostoso. Quero-o muito!” Esse homem será valoroso, alguém que agirá bem, se o seu lado racional que lhe diz para não sabotar a dieta conseguir vencer esse desejo mórbido, terrível e amoral de fartar-se em demasia de pudim e de outros quitutes saborosos. Por outro lado, no caso de alguém que deteste pudim, resistir a um nada teria de virtuoso. Só haveria atitude moral no conflito entre o corpo e a alma.
Ora, se nossas almas se lembrassem plenamente da experiência que tiveram lá no mundo metafísico acerca do bem, da verdade e da justiça, nunca errariam nas atitudes e nas avaliações do que seria agir verdadeiramente em conformidade com as verdadeiras essências das coisas. Jamais erraríamos no que diz respeito ao valor de uma atitude como sendo em conformidade ou não com o bem. Jamais erraríamos também nos nossos juízos estéticos. Ora, se de fato não nos entendemos, se divergimos tanto com relação à verdade, ao bem ou à beleza seria porque nosso espírito falha na reminiscência dos verdadeiros valores.
Aristóteles, aluno de Platão, afirmava haver uma espécie de pista que nos permitiria melhor nos posicionarmos frente aos valores. Se a verdade, o bem e o belo estão interligados num esquema hierárquico, então essa ligação permitiria que se deduzisse um desses valores a partir do outro. Percebendo a beleza de algo, esta poderia ser uma pista de que aquela coisa bela é também boa. Percebendo algo como bom, isso poderia ser uma pista para saber que é também verdadeiro. Voltando às galinhas, imaginemos que precisássemos avaliá-las, procurar saber qual delas estaria em mais conformidade com a galinha ideal, qual delas seria a rainha do galinheiro. Quanto mais bela uma galinha fosse, mais verdadeira e melhor ela seria. Você poderia perguntar: “Mas se não me lembro da galinha ideal, como julgar bem?” Você poderia apelar para qualquer um dos três atributos. Poderia apenas com base na beleza inferir que a galinha mais bela fosse também a mais verdadeira, ou seja, a mais parecida com a galinha que o é em essência.
Ao homem que mantém a capacidade de bem harmonizar a sua percepção estética do belo, o seu julgamento moral com relação ao bem e a sua capacidade cognitiva de perceber a verdade, Aristóteles chamou de justo. Para entender a correlação que ele faz sobre justiça, é preciso saber que justiça para ele não é retribuição a um bem ou mal praticado. Justiça tem mais o sentido de ajustamento. Justa é a coisa bem-ajustada, a que aqui, no mundo material, estaria bem próxima do seu ideal. Nesse sentido, quanto mais uma coisa fosse bela, boa e verdadeira, mais em conformidade com o ser e, portanto, mais justa ou ajustada ao mundo ela também seria.
Este é um discurso de filósofos, mas correspondia a boa parte do senso comum grego, àquilo que não só os pensadores de primeira linha chancelavam, mas que o homem grego comum acreditava ser verdade e que aparece em vários textos antigos em frases como: “Tudo que é belo, bom e verdadeiro é também justo.”