Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 2 de 89

Páginas do PDF

Somos Todos Canalhas

Parte I GREGOS

Parte I

 

GREGOS

Intervenção 1

Clóvis

 

Nas minhas aulas, quando falo de valor costumo partir de um exemplo familiar aos alunos: a prova – um procedimento de avaliação entre outros possíveis. Com efeito, é preciso atribuir-lhes uma nota para que possam ou não ser aprovados. Sempre me intrigou que um aluno qualquer que compareceu durante todo o semestre, participou das aulas, manifestou-se, ganhou repertório e conservou lacunas possa ter uma avaliação traduzida em um único número entre zero e dez. Sete, por exemplo.

Ora, o que efetivamente aconteceu? Bem, foi aplicada uma prova. Fica estabelecido por um acordo tácito que as questões que compõem essa prova e suas respostas são representativas de todo o desempenho do aluno. Realizada a prova, o professor faz a correção. Em que consiste esse procedimento? Em verificar – de forma mais ou menos rigorosa – a equivalência entre as respostas dadas pelo aluno e aquelas consideradas corretas pelo docente. No caso de uma prova de múltipla escolha, essa verificação é imediata e mecânica. No caso de uma prova dissertativa, a comparação é mais trabalhosa e sutil. Mas em qualquer tipo de prova a nota do aluno resulta de uma comparação com uma prova de referência: o gabarito da prova.

Este exemplo nos permite propor algumas questões. Será que para atribuir valor a outras coisas – diferentes de uma prova – realizamos procedimento semelhante? Será que todo valor pressupõe uma comparação com alguma referência considerada nota dez? Imagine que você esteja mobiliando um apartamento para onde pretende se mudar. Você precisa de uma mesa de jantar. São várias as possibilidades. Para escolher uma, você precisa atribuir valor a todas aquelas que se apresentam como compráveis. Será que acontece com a mesa de jantar o mesmo que aconteceu com a prova do aluno? Será que o seu valor tem a ver com a comparação que possamos fazer com a mesa nota dez ou com um gabarito de mesa?

Mais um exemplo. Afinal, nem só de corrigir prova vive um professor. Felizmente. Nada pode ser mais enfadonho. Quando se pensa na atividade docente, o que vem à mente em primeiro lugar é a aula propriamente dita. Dar aula tem algo de artístico que torna o ofício mais atrativo. Pois muito bem. Qual o valor de uma aula? Em muitas universidades, sobretudo as privadas, os professores são avaliados pelos alunos em fichas com critérios muito objetivos. Não raro, de zero a dez. De onde o aluno tira essa nota? Como pode concluir que o professor vale cinco ou quatro? Será que neste caso também é preciso fazer uma comparação? Uma verificação de correspondência ou semelhança com alguma aula nota dez? Um gabarito de aula?

Caso você concorde que para atribuir valor ao que quer que seja – artefato, obra de arte, conduta humana, paisagem, corpos – tem que compará-la com uma referência considerada nota dez, terá que enfrentar novas dificuldades: essa referência já existe em algum lugar e nos toca encontrá-la? Se já existe, onde se encontra? Como fazer para chegar até ela? Qual o caminho ou procedimento? Essa referência é só uma ideia ou perambula pelo mundo dos corpos? E se essa referência não existir em lugar nenhum? Neste caso, teríamos que fabricá-la?

Estas dificuldades se apresentam na hora de escolher a mesa e avaliar o professor. Como em qualquer outra situação em que a vida depende de nossas escolhas. Sem referência, como escolher? E, como se tudo isso não bastasse, ante uma referência qualquer sugerida por alguém, como ter certeza de que essa é a nota dez? Afinal, não faltarão aqueles que tenham interesses relacionados à nossa escolha e que por isso queiram influenciá-la. Um exemplo é o vendedor, que sempre tem uma referência muito parecida com o produto que precisa vender.

Bem, estas são perguntas interessantes e que permitem ao meu amigo Júlio intervir.