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Intervenção 1 Júlio
Intervenção 1
Júlio
Penso que da mesma forma que se pode atribuir valor às coisas, ou por um critério instrumental – e, portanto, o valor dependeria do objeto que é instrumentalmente conquistado – ou então pressupondo a existência de um valor inerente às coisas, também seria possível fazer isso com pessoas. É o que geralmente ocorre em empresas onde algumas pessoas são representadas como tendo determinados valores inerentes. Geralmente isso ocorre com aqueles pertencentes à alta diretoria. Ele não é bom tendo em vista os resultados da empresa, nem o seu histórico. Ele é bom porque ele é bom. Porque a sua eficácia empresarial é apresentada como se fosse um atributo inerente. Quando geralmente se atribui valor às pessoas dos escalões mais baixos, isso é feito por uma perspectiva instrumental. Ele é bom porque faz um bom serviço. Sem o bom serviço realizado não há valor. E no momento em que ele não conseguir mais desempenhar serviço algum interessante para a empresa, valor nulo. A principal consequência dessas duas maneiras de se valorar alguém é que o valor atribuído aos primeiros não muda tendo em vista os resultados. Trata-se de uma perspectiva aristocrática em que uns são considerados melhores por sua própria natureza, por serem quem são. Quanto aos segundos, seu valor varia na medida de sua utilidade.
Isso me lembra uma perspectiva de certa forma contrária a essas duas possibilidades utilitaristas de se atribuir valor, que na verdade corresponde à ideia de não poder se atribuir valor às pessoas. Valores seriam atribuíveis às coisas, aos objetos percebidos. Às pessoas, não. Esta é a perspectiva de Kant, que retomo aqui apenas a título de breve observação. Kant dizia que o espírito, que você pode entender como alma, como aquilo que em nós nos faz pensar e, em certa medida, nos faz sentir, é aquilo que atribui valor às coisas. E como tal, tudo o que é objeto de percepção do espírito pode ser por ele, no ato de perceber, valorado. Portanto, o meu espírito percebe coisas. E ele tem como uma espécie de condição dessa percepção a atribuição de um valor, assim como tem também a condição da percepção de um sentido.
Para entender melhor o que eu quero dizer com condição, imagine a ideia de cor. Nós olhamos uma cadeira e dizemos “cadeira azul”. A que se encontra ao lado dizemos ser rosa. Dizemos que o azul da cadeira azul e o rosa da cadeira rosa seriam atributos inerentes. Mas você sabe que cor é uma espécie de luz interpretada. Primeiro pelos seus olhos, que captam determinada frequência. Segundo pelo seu nervo ótico. A percepção das cores, assim como o espectro captado, depende de como eles funcionam. O espectro de cores é muito maior do que aquele que podemos perceber com os olhos, por exemplo. Nós não enxergamos nada abaixo do vermelho nem acima do violeta. Mas um boi tem um espectro de cores visíveis mais amplo do que o nosso. E, portanto, um bovino numa sala a vê completamente diferente do que um humano. E é muito difícil para nós dizer qual dos dois vê a sala mais verdadeira, qual dos dois percebe com maior perfeição, o que tem maior ou menor espectro de luzes. O que chamamos de realidade nada mais é do que uma consequência da forma particular de como percebemos alguma coisa. Realidade enviesada.
O fato é que, sabendo que a cor é formada na sua mente, a partir de um modo particular de percepção dos seus mecanismos biológicos de sensações visuais, ainda assim você não consegue olhar algo sem cor e, numa fração de segundos depois, atribuir uma cor ao objeto percebido. A percepção dos dois é instantânea. Você vê o objeto e a sua cor. O mesmo aconteceria com significado e valor. Nós temos como condição de percepção das coisas percebê-las não só com cor, mas também com significado e com valor. Isso não quer dizer que o valor seja inerente às coisas. Ele pode ser atribuído, mas a atribuição é simultânea com relação à percepção material do objeto.
O espírito é onde a atribuição de significado e valor ocorre. Agora, imagine uma metáfora que não é de Kant, mas que ele poderia muito bem ter utilizado. Na verdade é de Platão. O grego queria dizer que o autoconhecimento – conhece-te a ti mesmo – era uma impossibilidade, porque conhecer a si mesmo pressuporia que o espírito, que é aquilo que tudo conhece, que é o seu lado intelectivo, pudesse conhecer a si mesmo. E para tanto seria necessário que o espírito pudesse contemplar a si mesmo. Platão considera isso uma impossibilidade. E ele se explica com a metáfora do olho. O olho é aquilo a partir do qual tudo vemos. Mas o olho que tudo vê é estranhamente incapaz de ver a si mesmo. O olho nunca terá de si mesmo uma experiência visual direta. No máximo, o que o olho tem disponível é sua própria imagem num espelho. No entanto, a imagem de nosso olho não é nosso olho. É outra coisa. É um olho duplicado. Uma percepção direta é impossível. Então, ou a nossa alma tem essa capacidade de refletir a si mesma, de espelhar-se, de reproduzir-se, para a partir daí analisar-se, ou então não é possível o autoconhecimento. Tanto é que à ideia de uma alma capaz de conhecer a si mesma, nós chamamos de reflexão. Uma alma que se reflete. Uma alma que enxerga a si mesma num espelho.
Pois bem. Essa alma capaz de perceber a si mesma, sendo ela aquilo que atribui valor, o faz com relação a todas as coisas, mas não pode fazê-lo com relação a si mesma. Da mesma forma que não faria sentido ela conhecer a si mesma. Então, Kant, seguindo Platão, também não acredita muito no autoconhecimento. Ele usa uma palavra diferente para valor. Porque o espírito é aquilo que valora, mas o espírito, pela incapacidade da reflexão, também seria incapaz de atribuir valor a si mesmo.
Toda e qualquer atribuição de valor a outro é não tratá-lo como um espírito pensante. É tratá-lo como coisa. Coisa que tem valor instrumental, pois o valor é efeito do modo particular de percebê-la. Mas, ainda assim, coisa. Quando falamos de humanos, de gente, não podemos falar em valor nem instrumental, nem inerente. O que eles têm, dirá Kant, é dignidade. Dignidade não é valor, e sim a impossibilidade de valor. Dignidade é a condição de existência de algo que valora, sendo que ele mesmo, enquanto coisa que valora, não pode ser valorado. Então, tanto para os do alto escalão da empresa, representados como pessoas que têm valor inerente, quanto aqueles de baixo escalão, dotados de valor instrumental, todas as valorações de andar de cima e de baixo são indignidade. Tratamento digno é não valorar.