Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 68 de 89

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Intervenção 7 Clóvis

Intervenção 7

Clóvis

 

Exatamente. O utilitarismo como teoria do valor pode ser objeto de problematização, de reflexão crítica. O primeiro nível de argumentos tem a ver com a sua perspectiva hedonista, e o segundo, com a sua perspectiva consequencialista. Comecemos então pela crítica ao hedonismo. Costuma-se acusá-lo de apresentar os seres humanos de forma indigna e também muito próxima da animalidade, da bestialidade. E isso porque se o prazer é o único bem de valor intrínseco, a nossa existência pouco ou nada diferiria da existência do resto dos animais. Animais que, a partir da nossa observação, parecem ser regidos pelos mesmos imperativos de sobrevivência, reprodução, busca de prazer e redução da dor.

Curiosamente Mill antecipa tal crítica. Reconhece que a teoria do valor utilitarista poderia incitar na mente de leitores críticos a impressão de que ele estaria equiparando a vida do homem à vida de qualquer animal. E se Mill antecipa esse argumento é para imediatamente contestá-lo. A resposta a esta crítica tornou-se célebre por ser ao mesmo tempo potente e astuciosa. É como se o filósofo devolvesse o argumento a seus críticos.

Ele observa que, ao colocar o prazer e a dor como guias soberanos, como bens intrínsecos, ele não está de forma nenhuma reduzindo o homem a um animal. Quem apequenaria o homem a tal ponto seriam justamente seus críticos, por assumirem que o homem não seria capaz de prazeres superiores aos prazeres dos animais. Aí, sim, estaria a indevida equiparação entre os homens e as bestas.

Em outras palavras, Mill admite que tanto homens quanto animais sejam regidos por uma espécie de princípio de prazer e que para ambos este último seja de fato condição da felicidade e referência maior para os valores das coisas do mundo. Mas isso não implica nenhuma equiparação entre homens e animais. Porque os homens teriam prazeres que lhes são específicos, ausentes, portanto, do mundo animal.

Desta forma, a fronteira entre os dois estaria preservada pela distinção entre o tipo de prazer perseguido pelo homem e o tipo de prazer perseguido pelos animais. Os prazeres que constituiriam referência para a teoria dos valores humanos não equivaleriam aos prazeres suínos, caninos, felinos, equinos ou ovinos.

Mill então proporá que os humanos são capazes de formas superiores de prazer. Estes, sim, seriam legítimos para indicar a felicidade e servir de referência para a atribuição de valor às coisas do mundo e às ações humanas. E quais seriam estes prazeres superiores? Preste atenção agora!

Para ele, os prazeres superiores são todos os que decorrem de uma tangência, de uma justaposição da inteligência com as sensações do homem, ao passo que os inferiores são exclusivamente decorrentes das sensações dos corpos – das suas sensibilidades, das suas mucosas, dos seus atritos e preenchimentos.

Que fique claro ao leitor! Os prazeres superiores evidentemente não dispensam as sensações do corpo, mas resultam de uma participação decisiva da inteligência. E supomos que por inteligência Mill queira dizer toda e qualquer atividade do espírito. Atividade de associação de ideias, de categorização, de construção de abstrações, de pensamento, em suma. Assim, a leitura de uma grande obra literária desperta prazeres superiores – que envolvem inteligência e sensações corporais – enquanto uma bimbada com parceiro desconhecido em noite de bebedeira oferece a seus partícipes prazeres exclusivamente inferiores.

Lembremos que, para Mill, a referência mais sólida para atribuição de valor são os prazeres por ele chamados de superiores.

Tomemos como exemplo o desejo ardente de cópula. Não há a menor dúvida de que esse tipo de inclinação é encontrável nos animais e também no homem. Assim, os animais vivem o período do cio, e os homens, seus momentos de busca mais intensa pelo coito. Mill não nega esta correspondência. Os homens, portanto, também se dedicam à busca de prazeres inferiores, equivalentes aos dos animais. Mas imaginemos uma relação de amor entre duas pessoas. É verdade que nela haverá desejo de cópula, por vezes, ardente. Mas esse tipo de laço vai além das inclinações carnais. Pode inclusive dispensá-las.

Assim, é possível que haja nesta relação manifestações de puro carinho. Discursos poéticos. Produção de obras de arte. É possível que aqueles que se amam se concedam gestos de generosidade e que se apoiem em suas jornadas profissionais. Assim a relação de amor vai além do coito. Existe, portanto, uma participação do espírito, da inteligência, que constitui a relação amorosa, profundamente ensejadora de prazeres que, segundo o filósofo, são indiscutivelmente superiores aos prazeres sentidos pelo animal no cio ou pelo homem que se restringe à cópula.

Esta reflexão de Mill está profundamente presente nas conversas sobre relações afetivas entre pessoas. E assim, frases como “cuidado, ele só quer te comer” ou “esta, a única coisa que quer é sexo, é uma devoradora de homens” ou ainda “os homens só pensam naquilo” são comuns na hora de falar dos afetos entre pessoas.

Ainda um exemplo de como Mill defende o seu hedonismo: tanto homens quanto animais buscam a saciedade alimentar. Ambos buscam evitar a fome. Portanto, saciedade e fome são referências para a atribuição de valor às coisas do mundo. Tanto homens quanto animais podem buscar a saciedade através da simples locupletação do estômago.

Mas só o homem pode refletir a respeito. Se homens e animais têm prazer em deglutir alimentos, só o homem pode intelectualizar a busca desse prazer. Só ele pode converter essa busca numa fina gastronomia. Só o homem pode antecipar o prazer escolhendo a justaposição de ingredientes, dispondo iguarias em sucessão. Testar combinações pouco recorrentes, dispor os alimentos no prato de forma apetecível aos olhos, buscar uma combinação de cores que torne atraente a apresentação do alimento.

Assim, Mill assegura que, embora haja pontos de semelhança entre o prazer do homem e o prazer animal, só o primeiro pode tornar o prazer da ingestão de alimentos uma alta gastronomia. Só o homem pode combinar o estímulo do paladar com uma inteligência a seu serviço.