Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 15 de 89

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Intervenção 7 Júlio

Intervenção 7

Júlio

 

O tema abordado pelo colega me transportou aos textos de Platão – em geral, muito fáceis de serem lidos. São diálogos e, em muitos deles, tem-se a clara impressão de que o interlocutor de Sócrates era um idiota. Isto porque Sócrates pega o interlocutor pela mão e o leva, ponto a ponto, assunto a assunto, até determinada conclusão, ainda que esta seja a incerteza sobre o ponto de partida da conversa. Mas, no geral, os textos são muito palatáveis. A exceção é o diálogo Timeu, em que Platão demonstra a ideia de universo cósmico. Trata-se de um diálogo bastante estranho. Nos demais, Sócrates é o protagonista. Nesse, não. Sobra-lhe o papel de coadjuvante. Ele se cala. Não contribui com quase nada de relevante para o diálogo. O protagonista é Timeu, que dá nome à obra.

É Timeu quem descreve em termos matemáticos uma espécie de princípio geométrico da ordem do universo finito. Na verdade, é um texto tão difícil que me lembra os enunciados das provas de geometria do ensino médio. Aqueles enunciados que, em vez de apresentar o desenho, o descreviam somente. Imagine um círculo de raio x, com uma reta secante que tangencia um triângulo no quinto terço do raio oposto ao ângulo reto de um triângulo inscrito... Era terrível! Levava-se mais tempo desenhando a figura do que propriamente calculando um ângulo perdido qualquer ou descobrindo a medida de um segmento de reta.

Esse tema, a geometria, era o que Platão considerava o saber mais profundo de sua filosofia, sobre o qual, curiosamente, ele escreveu pouco. Só Timeu é uma espécie de demonstração desse conhecimento profundo. Aos poucos iniciados que esse Platão elitista havia escolhido para receber seus ensinamentos mais rebuscados, o que ele ensinava era a geometria. Ora, sendo o universo finito, uma grande ordem geométrica, uma grande máquina cuja finalidade era ser o mundo que é, então seria possível um conhecimento geométrico dessa realidade, que permitisse uma precisão matemática de julgamentos, de comportamentos e, claro, de valores. Poderia haver uma grande aritmética dos valores que garantisse, por exemplo, que um grande computador fosse programado para acertar nos julgamentos morais com precisão absoluta. No entanto, até onde sabemos, a geometria é muito útil para o cálculo das coisas materiais, das figuras, de ângulos perdidos em meio a figuras complexas. Porém, é inútil para garantir a certeza de agir moralmente bem.

Vale observar que, por um lado, parece muito bom que Platão não tenha razão com relação à finitude do universo cósmico. Imagine se fosse possível um cálculo milimétrico de todos os valores que orientassem nosso comportamento, de maneira que conseguíssemos uma precisão matemática em toda e qualquer circunstância da nossa existência sobre como agir em conformidade com o bem, o belo e a verdade. Imagine que pudesse ser programado um computador, por exemplo, para gerenciar todas as forças militares dos Estados Unidos; ou um computador que soubesse de forma verdadeira, boa e bela qual seria o momento de apertar o botão que colocaria em ação todo o arsenal nuclear. Ou então, imagine uma empresa. Esta não precisaria de conselho deliberativo ou CEO. Nenhuma dessas siglas em inglês que determinam aquele que manda na empresa. Haveria um computador que determinaria passo a passo, de forma muito bem-calculada, todas as estratégias da empresa para que ela agisse sempre de forma boa, bela e justa, sempre alcançando as suas finalidades conforme a programação. Algo que não erraria jamais em suas escolhas.

Imagine que, uma vez conhecido o cálculo, não apenas uma empresa tivesse um computador fantástico desses, mas todas, sem exceção. E que assim nenhuma delas jamais errasse nas suas ações de mercado. Se isso acontecesse, a questão é: seria possível uma vida econômica em que todos lucrassem indistintamente, sem que ninguém perdesse, sem aquisições de mercado, sem barberagens estúpidas de gestores que geram desemprego, produtos torpes e assim por diante? Repare que esse mundo, ainda que fosse possível, talvez não fosse muito agradável de ser habitado. Talvez seja melhor mesmo viver num mundo que não seja um cosmos harmônico, com tudo funcionando de maneira bem certinha, e sim um cosmos difícil de ser calculado, que não cabe numa equação, mas que em compensação é cheio desses erros, surpresas e maravilhas típicas da vida humana. Típicas de gente que não sabe muito bem o que fazer em vários momentos da vida, que não sabe muito bem que valor atribuir às coisas. Gente que hesita sobre a verdade, a beleza e o bem.