Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 76 de 89

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Intervenção 11 Clóvis

Intervenção 11

Clóvis

 

Um terceiro problema de toda teoria de valor consequencialista é estabelecer o limite de consequências. Dado que consequências também são causas de novas consequências, resta saber até onde temos que ir para realizar um juízo de valor adequado.

Afinal, nada impede que uma coisa ou conduta humana enseje num primeiro momento felicidade, prazer, eliminação de dor e estes, na sequência, causem consequências nefastas. Assim um cigarrinho depois do café acalma, mas destrói o pulmão. Uma pílula de êxtase potencializa o tato, mas gera dependência. Um vinhozinho relaxa, mas pode trazer dor de cabeça. Um sexo frenético desperta orgasmos múltiplos, mas cria expectativas de amor eterno.

Assim toda consequência útil, geradora de felicidade, poderá ser também causa de efeito oposto. Infelicidade, ganho de dor e ausência de prazer. Nesse caso, cabe-nos perguntar se os efeitos de segunda mão – cronologicamente mais distantes da causa a ser julgada – seriam inferiores aos de primeira mão. Ora, essa assertiva é absurda. Efeitos são efeitos. Isto é, ocorrências que inexistiriam sem suas causas. Enquanto tal, gozam do mesmo estatuto. Não há consequências de primeira classe e as outras. Ou são consequências ou não são.

Assim, o que temos é complexidade. Felicidade antes, infelicidade depois. Ou porque não pensar na ordem inversa. Um primeiro efeito de infelicidade, de dor, que por sua vez é gerador de felicidade posterior. Como um tratamento dentário, como uma operação de desvio de septo, como uma separação em relação problemática. Que num primeiro momento sempre causa uma certa solidão mas que num segundo momento pode permitir um encontro alegrador.