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Parte IICRISTO E OS MODERNOS
Parte II
CRISTO E
OS MODERNOS
Intervenção 1
Clóvis
Deixemos os gregos para trás e avancemos, caro Júlio. A passagem do pensamento grego para o cristão se objetiva numa série de rupturas. Uma nova teoria do valor, com certeza. Mas não só. Muda o entendimento do universo e sua origem; a natureza humana; o sentido da vida; a ética, a política, formas legítimas de exercício de poder, a salvação etc. Para os objetivos desta nossa conversa, a grande ruptura está no descolamento – é como eu o chamaria – proposto pela filosofia cristã da moral e da política em relação à natureza.
Explicando melhor: para os gregos, a superioridade de recursos naturais por parte de alguns homens – inteligência, força, beleza etc. – implicava automaticamente uma superioridade moral e política desses mesmos aquinhoados. Em contrapartida, para o pensamento cristão, esta correspondência desaparece. Ou seja, a superioridade na natureza nada tem a ver com dignidade moral e exercício de poder. Acho que posso desenvolver esta ideia, se o professor Júlio não se opuser.
Comecemos, então, pela natureza. E nesse ponto não há divergência. Tanto para gregos quanto para cristãos, os homens são desigualmente providos de recursos. A beleza, por exemplo, é mal distribuída. Pessimamente, eu diria. Está dramaticamente concentrada num número reduzidíssimo de corpos. Esse é o meu olhar. E falo em nome do significativo contingente de pessoas que, como eu, para conseguir a atenção do interlocutor, sempre teve que se desdobrar para reverter uma disposição inicial ostensivamente adversa. Acho até que parte da habilidade retórica que desenvolvi se deve ao capital estético negativo que me endividava a cada interação. Mas não fica só na beleza. Discernimento, uso da lógica, capacidade de abstração, de articulação criativa de ideias, de observação inteligente da realidade, menos visíveis de longe, também deixam muita gente na mão na hora de chegar junto para bater um papo.
E essa concentração de recursos naturais nas mãos de poucos pode parecer para você que nos lê uma grande injustiça. Afinal, se me colocarem ao lado de um galã de novela, você verá que houve uma certa má vontade na hora do acabamento. Alguns filósofos argumentarão que tudo na natureza é maravilhoso. Até a baba do javali. Você é que precisa melhorar o seu olhar. Ver a articulação de tudo. Contemplar mais de cima. Constatar que tudo se encaixa.
Outros dirão que não há nem justiça nem injustiça. A natureza é o que é. O erro é sempre de expectativa. Você é que – por conta da sua formação – talvez esperasse uma distribuição mais igualitária de recursos. Coisa de gente acanhada. Os galãs, os gênios, os super alguma coisa, estes não estão reclamando de nada. O direito de espernear será sempre dos que ficaram chupando o dedo.
Aliás, toda tentativa de avaliar a natureza, de julgá-la, de atribuir-lhe valor a partir de premissas de racionalidade consagradas leva a uma incompreensão indignada, a flagrantes sem explicação e a uma tristeza ignorante. Querer que a natureza seja como supomos que ela deveria ser é como procurar pelo em ovo – tarefa que só entristece.
Desta forma, se há ruptura entre os pensamentos cristão e grego, esta não reside na distribuição de talentos, e sim na relação entre natureza e valores. Enquanto para os gregos a riqueza de recursos naturais indicava superioridade ética e política, para o pensamento cristão o mesmo não acontece. Isto é, uma eventual superioridade de natureza, de recursos naturais, de talentos, de habilidades etc. nada tem a ver com dignidade moral nem com superioridade de princípios na relação entre as pessoas.
Perceba que a reflexão sobre o valor muda de lugar. Isto porque gênios como Pierre Bourdieu, Mikhail Bakhtin e Maria Aparecida Baccega, para ficar na letra B, não são necessariamente mais dignos moralmente nem superiores na relação com outras pessoas do que criaturas de inteligência mais próxima da média como eu mesmo.
Mas, então, nesse caso, onde está o fundamento do valor? O que permitiria discriminar as pessoas já que a riqueza de recursos naturais foi abandonada como critério? Aqui a liberdade para escolher a própria vida, decidir as próprias condutas, investir energia nesta ou naquela atividade passa a ser o ponto de partida. Portanto, o valor deixa de estar na quantidade de talento legado pela natureza. Encontra-se agora na decisão que tomamos a respeito do que fazer com os talentos que são os nossos. O valor está na razão soberana que pensa a conduta. E – por que não dizer? – na conduta efetivada a partir do pensamento.