Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 51 de 89

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Intervenção 13 Júlio

Júlio

 

A radicalidade de Kant, o colega há de concordar, reside em atribuir à conduta moral um caráter heroico. Ninguém é herói única e exclusivamente pela conduta que pratica. O heroísmo é avaliado por um lado pelo resultado da conduta, mas por outro e sobretudo pela intenção do agente que a praticou. E a conduta é claramente heroica quando o herói pratica o bem em sacrifício próprio. Quando anula a si mesmo em favor de outros. Muitas vezes, outros que ele sequer conhece, o que afastaria qualquer possibilidade de simpatia ou antipatia pela pessoa beneficiada pelo heroísmo. Não é à toa que heróis mortos valem mais do que heróis vivos. E, às vezes, o sacrifício merece aplausos mesmo independentemente dos resultados. Porque a conduta numa perspectiva kantiana seria valorosa única e exclusivamente pelo heroísmo marcado ou apontado pelo autossacrifício em nome de um valor – valor esse que Kant esperava ser racional. Mas como a razão pura elegeria os valores? Quais valores racionalmente seguir? Como saber se os valores ou as razões que pautam a conduta não seriam razões impuras, governadas pelos afetos? Afinal de contas, não é raro alguém movido pelo ódio, ao justificar a sua conduta, ocultar com razões o ódio que de fato sente. Ocultar não apenas do outro, mas até de si mesmo. Então, como saber? Quais os princípios dignos de serem seguidos e que tornariam a conduta valorosa, heroica?

Como resposta, Kant propõe o que ele chamava de imperativo categórico. Imperativo porque se trata de uma norma a ser seguida para que a conduta seja valorosa. E categórico porque “categoria” era o nome que o filósofo atribuía ao produto da deliberação da razão pura. O que a razão pura produz, portanto, não são ideias, mas categorias, na linguagem kantiana. Imperativo categórico ou a categoria que se imporia na conduta. Ou deveria se impor para que a conduta fosse valorosa. Não apenas moral, mas também boa. Quando a pessoa age movida pelos afetos, para Kant a conduta não seria sequer moral, porque os afetos seriam manifestação da natureza. Dos afetos, nós não temos defesa. Eles não são produto da escolha. São o que são por efeito de como o mundo nos afeta. E sem liberdade, portanto, não haveria conduta moral. Então, seria possível valorar o ódio porque ele é como é. E aquele que odeia não tem como opção não odiar. Assim como aquele que ama não tem como opção não amar. Mas nós temos a opção de, odiando, escolher agir como quem não odeia e, amando, escolher agir como quem não ama. Essa é a nossa liberdade. Uma liberdade, portanto, de agir de forma divorciada dos nossos afetos. Se não são os afetos que estão a nos governar nessas circunstâncias, então quem nos governa se não a razão? E moral de fato seria a conduta quando a razão não é mera coadjuvante, e sim ator principal. Mas para que isso ocorra é preciso que essa norma racionalmente pura da conduta, esse imperativo categórico, tenha sido construído antes da conduta por ela regida. Requer-se aí uma anterioridade da norma moral com relação à conduta. E, portanto, nós deveríamos deliberar abstratamente sobre o que é certo e errado. E uma vez feito isso, aí sim agir racionalmente.