Somos Todos Canalhas
Intervenção 9 Clóvis
Intervenção 9
Clóvis
Acontece, meu caro, que nos dias de hoje temos rankings e classificações para tudo. Eis uma herança do jeito grego de atribuir valor. Tudo é superior ou inferior a tudo. Porque as coisas no universo, as suas partes, não se equivalem na hora de cumprir suas finalidades. São diferentemente competentes para alcançar os seus fins. Não dispõem da mesma quantidade de recursos. Como o valor delas depende desta competência para alcançar as suas finalidades, temos que supor que para os gregos há no universo uma escala hierárquica entre tudo o que existe, uma hierarquia natural dos seres.
Assim, imaginemos que do ponto de vista cósmico a finalidade de uma vaca seja dar leite. Portanto, haverá vacas superiores a outras. Porque elas não são igualmente competentes na sua atividade lactácea. Imagine que a finalidade de um sapo seja mesmo de engolir moscas. Pois os sapos também são desigualmente competentes para tal. Imagine que a finalidade do joelho seja dobrar. A finalidade do intestino, peristaltar. Somos obrigados a admitir na nossa própria experiência e na observação da experiência alheia que nada disso é igualmente competente para cumprir a sua finalidade. Um intestino preguiçoso pode desgraçar a vida de seu portador.
Ora, essa perspectiva hierárquica entre os seres é fundamental para que entendamos a forma grega e cósmica de atribuir valor às coisas. Resta-nos investigar de que maneira isto nos concerne. Cada um de nós é dotado de certa quantidade de recursos naturais que nos são dados por uma herança natural. São uma dádiva da natureza, potencialidades. Assim, no que me diz respeito, mesmo que eu dedicasse a vida ao desenho, não chegaria longe, pois a natureza me negou potencialidades de desenhista. Negou-me também potencialidades para o canto, para o domínio da bola com os pés e também com as mãos. Negou-me ainda potencialidades no âmbito das artes manuais, como, por exemplo, esculturas de argila e origami.
A natureza me negou muitas potencialidades, mas me brindou com algumas poucas. E assim, acredito eu, desde que me conheço por gente sempre tive alguma competência para traduzir ideias complicadas em discursos simples. E isto eu percebi muito antes de começar a fazê-lo para os outros. Nas minhas atividades escolares, na hora de estudar para as provas, eu conseguia, no contato com ideias complexas, traduzi-las de maneira bastante simples para o meu próprio entendimento. Talvez esta habilidade de tradução de coisas complexas em formas simples de entendimento tenha a ver com a minha pouca capacidade de alcançar ideias grandiosamente complexas.
Mas o fato é que pouco a pouco, conversando com os colegas, percebi que eles me pediam para explicar a matéria da prova cinco minutos antes de ela começar. Era sempre a mesma coisa. “Vamos, você será capaz de me dizer o que é o essencial em dois minutos.” E curiosamente, muitas vezes, aqueles que por poucos minutos me ouviram traduzindo um bimestre de explicações professorais conseguiram resultados bem razoáveis em suas provas – senão excelentes. Não foi difícil, portanto, perceber que esta atividade de aproximar as ideias do professor ao repertório concreto do aluno era uma atividade para a qual a natureza tinha me reservado alguns recursos.
Ora, dirão os gregos, como tudo no universo, esses recursos de que dispomos, que hoje chamamos de talentos ou habilidades, não são inúteis. Porque nada no universo está sem função. Portanto, eis aí uma espécie de lição cósmica para as nossas vidas: aproveite os seus recursos naturais da forma mais excelente possível. Claro, porque esses recursos, embora existam, têm limites. E você deverá estender a sua competência no limite mais esgarçado possível dos seus recursos naturais. Portanto, cabe a você atualizar os recursos naturais na hora de viver, porque assim estará permitindo a eles a sua finalidade e com isso entrará em harmonia com o resto das partes do universo.
A capacidade de atualizar no cotidiano da vida as suas potencialidades naturais denomina-se, para os gregos, virtude. Então, a virtude é a disposição que cada um de nós pode ter de atualizar, isto é, de transformar em ato, em conduta, em comportamento, em realidade as potências, as possibilidades dos recursos naturais que nos foram legados na distribuição original realizada pela natureza.
Desta maneira, meus amigos, a nossa vida será tanto mais valiosa e o nosso comportamento terá tanto mais valor quanto mais virtuosos eles tiverem sido; quanto mais tivermos atualizado nossas potências no seu limite de extensão mais excelente.