Somos Todos Canalhas
Intervenção 7 Clóvis
Intervenção 7
Clóvis
Pelos últimos cinco séculos, temos acreditado que o universo é infinito. Você, Júlio, e o leitor certamente se lembram dos tempos da escola quando o professor informou que o universo não tem fim. Eu, de minha parte, sempre tive imensa dificuldade para imaginar o que não tem fim. Mais tarde, estudando filosofia, alguns pensadores me tranquilizaram. Eles garantem que não dá mesmo para imaginar o que não tem fim. São os chamados limites da imaginação. Alguns colegas, bons pensadores também, asseguram que com uma ou outra pastilha talvez não cheguemos ao infinito, mas vamos bem longe. Prefiro me conformar com minhas limitações imaginativas. “O universo é infinito”, para mim, são quatro palavras. E pouco mais.
Os gregos por seu turno acreditavam que o universo fosse finito. Confesso que a dificuldade permanece. Imagine que você entra em algum lugar grande. Um parque, por exemplo. O universo seria o parque. Mas, é claro, existe alguma coisa óbvia quando se pensa num lugar marcado por suas fronteiras que é o que está fora. Então, a primeira pergunta, pergunta de criança que começa a filosofar: se o universo é finito, o que é que fica do lado de fora? Eu obviamente não sei. Poderíamos arriscar usando a palavra “nada”. E tentar especular sobre ela. Mas aqui temos outras preocupações. E elas estão do lado de dentro. Deixemos o lado de fora para pensadores de maior envergadura.
Esse universo finito dos gregos seria constituído por um monte de coisas. São as suas partes. Partes que constituem o todo. Assim, podemos pensar nas estrelas, nos planetas, nos astros em geral. Podemos pensar também no nosso planeta, nos oceanos, nos ventos, na vegetação, nos animais e em nós mesmos. Partes desse grande todo chamado universo.
Essas suas partes constitutivas não estão onde estão por acaso. Elas estão no melhor lugar possível para cumprirem o seu papel, a sua finalidade. Nesse momento você poderia perguntar: mas por que as coisas têm uma finalidade? Porque cumprindo a sua finalidade elas permitem que o universo como um todo funcione bem. Sim, o universo teria um funcionamento. Ele seria incrivelmente organizado e ordenado para funcionar bem.
Você pode imaginar o quanto isso é desafiador para a nossa imaginação. O universo como um todo teria um funcionamento como se fora uma máquina. Toda máquina tem uma finalidade. O universo também teria. E todos os pedaços da máquina têm uma finalidade parcial que justamente permitem que a máquina como um todo funcione da melhor maneira possível. Então, vamos imaginar um moedor de cana-de-açúcar. Sua finalidade é transformar a cana em bagaço e este em suco. As partes constitutivas de um moedor de cana devem permitir que ele cumpra a sua finalidade. Pense então no universo. Este tem a sua finalidade, e suas partes constitutivas devem permitir que ele cumpra a sua finalidade.
Tomemos outro exemplo: um carro de Fórmula 1. Trata-se de uma máquina cuja finalidade é deslocar-se com a maior velocidade possível nas condições de dirigibilidade de um circuito próprio à modalidade. Nesse sentido, cada pedaço do carro, seu motor, as partes que constituem o motor, a suspensão, a lataria externa, tudo deve ser disposto de tal maneira a permitir que o carro cumpra o mais eficazmente possível a sua finalidade. Portanto, cada pedacinho do carro tem um propósito que, junto com os demais, faz o carro avançar o mais rapidamente possível.
Aqui poderíamos nos perguntar sobre o valor das peças de um carro de Fórmula 1. Você poderia questionar: qual o valor deste amortecedor? A resposta é dada pela finalidade da peça. Um amortecedor bom é aquele que amortece da melhor maneira possível. A segunda pergunta é: mas como vou saber como o amortecedor amortece da melhor maneira possível? Ora, quando permite ao carro andar o mais rapidamente possível. Você percebe que as finalidades das partes estão imbricadas na finalidade do todo, e o valor de cada parte depende da possibilidade de essa parte permitir ao todo funcionar da melhor maneira possível.
Feita essa analogia didaticamente nobre, é possível agora pensar no universo tal qual uma máquina. Aí, é claro, como pensavam os gregos, descobrimos que nós somos os amortecedores do carro de Fórmula 1 universal. Nós somos os pedaços de uma máquina. Nesse sentido, quando o vento venta, ele cumpre o seu papel, que é o de refrescar a máquina. A maré mareia e fertiliza a máquina. E, portanto, poderíamos imaginar uma reflexão sobre o valor do vento. O vento vale na medida em que refresca a máquina. Um vento que não o faz não cumpre adequadamente o seu papel. Mas por que a reflexão sobre o valor do vento parece esdrúxula? Porque o vento ventará e cumprirá o seu papel. Então, seu valor é obvio. Ele já está no seu lugar. Portanto, a reflexão sobre o valor do vento é desnecessária.
Mas quando a reflexão sobre o valor se torna necessária? Quando, diferentemente do vento, o desempenho da parte pode ser diferente do que é. E isso acontece quando envolve o homem. O homem está, mas pode não estar; faz, mas pode não fazer; canta, mas pode não cantar; desenha, mas pode não desenhar; fornica, mas pode não fornicar. Não só o homem, mas sua produção, sua criação, sua arte, sua iniciativa, que poderia ser diferente do que é. Poderia ser melhor do que é. Portanto, a reflexão sobre o valor se torna pertinente exatamente quando existe contingência. Quando existe possibilidade de ser diferente do que se é.