Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 70 de 89

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Intervenção 8 Clóvis

Intervenção 8

Clóvis

 

Mill antecipa outra crítica. Afinal, a observação dos prazeres do cotidiano, de como as pessoas vivem o dia a dia na opressão das rotinas laborais e familiares, pode sugerir que o homem vive quase exclusivamente em busca de prazeres inferiores. Assim, o lixo da cultura de massa, a pornografia virtual, o consumo da arte comercial, a instrumentalização, a alimentação rápida e em condições de pura instrumentalidade parecem indicar que os tais prazeres superiores de Mill – referência maior para o que vale e o que não vale – são excepcionais e restritos a grupos reduzidos.

Mill antecipa a crítica para poder rebatê-la. E o faz com a clareza de sempre. Se o homem tiver acesso aos prazeres superiores, ele os preferirá. Mas duas são as situações que impedem essa busca. A primeira delas seria uma educação empobrecida que distancia a criança e o jovem das experiências de prazer elevado. Uma socialização primária amputada de uma orientação para as práticas sociais de prazer mais nobre. A segunda situação é uma perda progressiva desse tipo de experiência prazerosa. Indivíduos que tiveram uma formação que os colocou em contato com o prazer elevado, mas que, ao longo da vida, pelas circunstâncias de trajetória, acabaram sendo forçados a se distanciar dessas experiências, perdem as condições materiais, sociais e econômicas de procurá-las.

Isso leva Mill a concluir que a possibilidade de obter prazeres superiores é frágil e está à mercê de inúmeras circunstâncias que podem torná-las cada vez mais raras ou inviáveis. Mas esta fragilidade estatística em nada muda o prazer superior como fundamento de uma teoria do valor. É bom e tem valor positivo aquilo que permite ao homem a experiência de prazeres superiores que reúnem sensações agradáveis do corpo com o uso elevado da inteligência. Assim, se vivemos numa sociedade onde as experiências de prazeres superiores se fazem raras é porque nela grande parte das coisas e das condutas humanas tem valor negativo.

Ao observar que a falta de experiência de prazeres superiores advém de certo tipo de socialização primária ou secundária, Mill faz um alerta, que é justamente a preocupação que devemos ter em participar de uma sociedade em que esse tipo de prazer seja cada vez mais possível e provável. O mesmo diríamos para a formação escolar. Nossa educação formal parece não ter lugar para o prazer. O preparo intelectual oferecido é legitimado por certo tipo de trajetória social esperada do aluno – uma eficácia de desempenho em situações de seletividade e competitividade, raramente de prazer.

A longevidade – restrita aqui a viver um número maior de anos – também pode ser problematizada à luz do critério de Mill. Todos nós em tempos atuais parecemos profundamente preocupados com as condições físicas, orgânicas, de saúde, por conta do pertencimento a um universo social altamente concernido por esse problema. Mas não há a mesma preocupação com a possibilidade de desfrutar de prazeres elevados, com a formação de nossos jovens para o que é nobre, sofisticado, qualitativamente superior. A combinação dessas duas tendências nos levaria a viver cada vez mais tempo, e assim as médias de idade se elevam, mas vivemos amputados de experiências prazerosas que fazem com que esses momentos cada vez mais abundantes possam valer a pena.

Em outras palavras, Mill nos diria que vivemos cada vez mais e pior. Assim seria a redução da dieta a uma questão nutricional. Comer em função de proteínas, carboidratos, vitaminas e nutrientes em geral é abrir mão do que a alimentação tem de melhor, que é a sua perspectiva prazerosa. Assim, de fato, ou comemos uma alimentação rápida, pobre em nutrientes e ruim em gosto, de pé e de maneira afoita, para garantirmos alguma eficácia em nossos afazeres, ou então comemos preocupados com a saúde. E aí abrimos mão do prazer em nome da ingestão de nutrientes. Nos dois casos, explica Mill, o mais importante da vida, isto é, aquilo que tem maior valor, fica descartado em nome de uma longevidade física ou de uma eficácia profissional que diferentemente do prazer elevado não tem valor em si.