Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 54 de 89

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Somos Todos Canalhas

Intervenção 15 Clóvis

Intervenção 15

Clóvis

 

Uma coisa precisa ficar cristalina, Júlio. Para Kant, o valor de uma conduta nada tem a ver com as consequências da mesma. Muitas variáveis podem incidir sobre essas consequências que nada têm a ver com as intenções do agente. Você pode ter certa intenção e o resultado efetivamente alcançado ser completamente outro. A insistência do filósofo é compreensível. No calor das interações cotidianas, a tendência a julgar as ações pelas causas que supostamente as motivam é significativa.

Lembro-me da casa da minha avó materna. Ficava na rua Manoel da Nóbrega. Em frente ao novo quartel, como dizia minha mãe ao taxista. Muito próximo da Assembleia Legislativa de São Paulo. E também do parque do Ibirapuera. Hoje, para minha tristeza, o imóvel está ocupado pelo diretório regional de um partido político.

A casa era grande. E bastante antiga. Seus atuais ocupantes fizeram uma reforma bastante grande. Havia uma entrada com um portão de madeira e um corredor, com uns 100m de extensão e uns 2,5m de largura, que margeava toda a casa, permitindo o acesso a uma garagem ao fundo. Neste corredor eu jogava bola com meus primos. Minha infância foi vivida ali. Na rua Manoel da Nóbrega.

Num daqueles domingos passados de manhã à noite neste lugar, eu me entretinha disputando uma partida de gol a gol com um hóspede da minha avó. Ela costumava dar abrigo a visitantes “vindos do Sul” que não tinham aparentemente destino certo. “Um quartinho e um prato de sopa eu garanto a qualquer um que aparecer.” Que mulher extraordinária. Um gol era a porta da garagem. O outro, o portão de entrada. Disputa renhida. Lá e cá.

Um chute meu que tinha a pretensão de encobrir meu oponente acabou endereçando a bola pela janela da sala. Ela colidiu com um vaso que adornava um piano jamais tocado. O vaso espatifou-se. Meu pai apareceu. “Vá ver o que você fez!” Ordenava colérico. Observe, professor Júlio. Eu teria meu chute avaliado. Não por algum fundamento ludopédico. Tampouco pelas minhas legítimas intenções. Mas pelo resultado alcançado. A saber, a ruptura daquele artefato, de gosto mais que discutível, saliente-se.

O mesmo acontece com os profissionais da bola. Pênalti bem batido é aquele que entra, diz algum especialista no assunto. Já o pobre treinador, este será avaliado pelo placar da peleja. Mesmo que seus jogadores tenham perdido inúmeras chances de gol – daquelas que qualquer um faria –, será condenado se o time tiver sucumbido frente ao maior rival. Nas empresas, os colaboradores serão aplaudidos se as metas forem alcançadas. Os CEOs, reverenciados se as expectativas de lucro dos acionistas forem ultrapassadas. E o marqueteiro político será ungido em triunfo se seu candidato vencer as eleições.

Mas Kant é enfático. A boa conduta nada tem a ver com conseguir um resultado vantajoso, e sim com fazer o que é devido. E todos sabemos quanto um não tem a ver com o outro. Assim, se você é dono de um comércio e age de maneira correta, pesando as mercadorias com exatidão, zelando pelo troco certo, oferecendo o melhor produto, não vendendo itens levemente passados do ponto etc., nenhum desses procedimentos garante por si um juízo moral positivo. É preciso saber por que você agiu desta forma. Admita. Você fez tudo isso para conservar ou aumentar a clientela, contar com uma boa imagem no mercado, costurar relações de confiança etc. Neste caso, você não agiu bem. Porque queria se dar bem, e só isso. Para agir bem, teria que ter feito a mesma coisa, mas por outro motivo: o de fazer o que é devido. E essa ação por dever tem que independer de qualquer efeito, até mesmo a busca da própria felicidade ou da felicidade de todos.

Lembro-me de um programa televisivo do qual participei intitulado Encontros. Naquela manhã, sua apresentadora, Fátima Bernardes, relatou o comportamento de um motorista de ônibus que devolveu grande quantia de dinheiro a um passageiro que havia esquecido o montante no veículo. O motorista contou que depois desse gesto a vida dele melhorou e que outras coisas boas aconteceram. A apresentadora então me perguntou:

“Professor Clóvis, o senhor acha que quando a gente faz o certo e age honestamente a recompensa é que a nossa vida melhora e a gente consegue coisas boas?” Nossa! Que sufoco! Isto é um dilema. Ficar encalacrado. Eu sabia que todos esperavam a minha confirmação. O motorista estava ali presente para mais esta bênção consagradora. A apresentadora, gentilíssima comigo, com a pauta na mão, aguardava ansiosa meu óbvio veredito. Paciência.

Fui obrigado a dizer que não só não havia nenhuma relação de causalidade entre agir bem e ser feliz depois como também não deveria haver na boa ação nenhuma expectativa de felicidade posterior. Porque a boa conduta dependia simplesmente de uma verdade embutida nela mesma. Tipo devolver o dinheiro por devolver o dinheiro. Porque é isso que deve ser feito, o que nada tem a ver com os encontros alegres e tristes do dia seguinte.