Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 27 de 89

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Intervenção 1 Júlio

Intervenção 1

Júlio

 

Outro aspecto significativo da mudança da antiguidade para a idade média é que, mantida a natureza, seu princípio de ordem muda. Quando escreve sobre a física, Aristóteles produz uma série de reflexões às quais ele não dá nome. São coletâneas esparsas de reflexões, não chegando a constituir um livro sistematicamente organizado. A estas reflexões, o filósofo se refere como “das coisas que estão em torno da física” ou “filosofia primeira” – a filosofia segunda seria a física. Não se tratam de questões sobre o mundo físico, que para Aristóteles abrangia também o que hoje chamamos de biologia, epistemologia e outras tantas ciências naturais e humanas, e sim sobre questões que não podem ser percebidas sensivelmente mas que, ainda assim, seriam fundamentais para o entendimento da física. Após sua morte, essas reflexões produzidas em catorze textos foram organizadas num único livro, tempos depois chamado de Metafísica.

Uma das principais questões desta metafísica era a da causa do movimento do mundo. A causa primeira de todo movimento e de toda a impermanência característica do mundo físico. A leitura medieval de Aristóteles feita por Tomás de Aquino chamará a causa primeira de todo movimento de Deus. A dinâmica do mundo físico passa a ser explicada como uma conformação produzida por uma força estranha a ele: Deus.

Essa força é descrita de forma predominante no pensamento medieval como um ser distante da natureza, como na experiência com Deus de Abraão, comum às três grandes tradições religiosas: judaísmo, cristianismo e islamismo. A ideia de milagre é uma consequência exemplar deste modo de pensar a divindade. Deus é o legislador das leis da natureza. Ele faz a natureza ser o que é. Ele é o princípio de organização e de atribuição de valor às coisas do mundo. Se este funciona de forma estranha, diferente, desprovida de explicação natural, como se regido por uma nova ordem natural, esta mudança só poderia ser obra do legislador, obra de Deus. Milagre é tudo aquilo que não tem explicação natural e que, ao ocorrer, provaria a existência de algo para além da natureza: Deus.

A partir desta ideia de natureza como consequência da vontade divina, a ética deixa de ser a busca por um atributo natural de cada indivíduo e do encaixe na natureza para ser a busca pelo enquadramento do indivíduo numa lei de Deus. Os livros de aconselhamento moral deixam de sugerir o “conhece a ti mesmo” para propor o “conhece a Deus e à tua obra. Entenda o que Deus quer para você.” E, claro, o valor de cada um na existência será determinado pelo quanto essa pessoa enquadra-se no plano divino.

A questão dos afetos também permanece, mas agora o problema do direcionamento do indivíduo segundo suas inclinações próprias torna-se mais claramente um problema. Voltemos ao exemplo do monge excitado. Flagelando-se, ele enfraquece o corpo e com ele o desejo, permitindo a imposição da razão sobre a vontade. Mas não se trata mais daquela razão que para o homem que bem se conhece o permitiria desenvolver com excelência as suas virtudes. Agora estamos falando do homem que conhece a lei de Deus e assim poderia impor essa lei estranha a si mesmo e à própria natureza como ato racional de escolha da adesão a um código moral divino.