Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 31 de 89

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Intervenção 3 Júlio

Intervenção

3 Júlio

 

Mas nem tudo era plenamente equânime, Clóvis. Apesar da revolucionária igualdade cristã, ainda subsistiu uma espécie de hierarquia natural. Dessa vez, a partir da razão, considerando que alguns são mais inteligentes que outros, que certas pessoas entendem as coisas mesmo sem que seja necessário lhes explicar nada, enquanto outras entendem desde que alguém lhes explique. Outras, por sua vez, não entendem nem se a coisa for muito bem explicada, nem se tiver figurinha.

Os mais inteligentes poderiam ser melhores do que os menos inteligentes, porque os primeiros escolheriam melhor, deliberariam melhor sobre a sua existência do que os segundos. Santo Agostinho tem quanto a isso uma perspectiva muito curiosa. A essa liberdade racional que nos iguala, ele chamou de livre-arbítrio. Livre-arbítrio e razão se confundem no pensamento de Santo Agostinho. Mas ele não pensa a razão ou o livre-arbítrio por graus. Ele considera que, para uma existência, todos nós teríamos o mínimo necessário para viver a vida com dignidade. Como ele justifica isso?

A discussão em Santo Agostinho passa por sua interpretação do pecado original. Os primeiros humanos, Adão e Eva, vivem no paraíso, e apenas uma lei lhes é imposta: a interdição do fruto. Eva comete o primeiro pecado e ainda influencia Adão a segui-la. A consequência é que ambos são expulsos do paraíso. Nós não somos Adão e Eva. Basta reparar no fato de que as pessoas estão vestidas. Mas seríamos todos nós filhos de Adão e Eva. Herdeiros do pecado original. Nascemos em desgraça, não por nossas escolhas, mas pelas escolhas de nossos mais remotos antepassados. Cá estamos nesse mundo que de paraíso não tem nada. Aliás, o mais próximo que se chega do paraíso é ali no comecinho da avenida Paulista. Fora isso, é só uma vida de engarrafamentos.

O fato é que Agostinho pergunta: por que Eva pecou? E responde: porque desejou. O desejo a levou ao pecado. E todos nós nascemos com esse dispositivo pecaminoso chamado desejo. Para Santo Agostinho, é o desejo que nos impediria de cumprir um dos mais valiosos mandamentos cristãos: o de amarmos uns aos outros. Se de fato nos amássemos uns aos outros, não haveria guerras, vilania, tirania etc. A vida compartilhada seria paradisíaca. Mas não nascemos com a capacidade de amar indistintamente, como Deus. Somos apenas sua imagem e semelhança. Deus, para tornar possível nos redimirmos do pecado que não cometemos, nos deu o livre-arbítrio. Razão substituta do afeto incondicional que não temos. Nós não amamos incondicionalmente o outro, mas condicionalmente. Amamos desde que nos trate bem. Desde que não nos maltrate muito. Mas, ainda que não sejamos capazes, por afeto, de amarmos uns aos outros indistintamente, somos capazes de compreender o amor e de entender a ação amorosa. Somos capazes, portanto, de escolher agir como quem ama, ainda que não exista o afeto amoroso pelo outro. Capacidade racional de entender o amor e de agir como quem ama não requer nenhum tipo de sofisticação intelectual. Todos a teríamos e, por isso, seríamos todos iguais.