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Parte III UTILITARISMO
Parte III
UTILITARISMO
Intervenção 1
Clóvis
Não poderíamos deixar de fora desse debate o utilitarismo, filosofia moral que fundamenta suas conclusões numa importante reflexão sobre o valor. É sempre importante lembrar que quando falamos de moralidade nos referimos a um conjunto de princípios que escolhemos livremente respeitar. São princípios que definimos como norteadores de nossas vidas. Naturalmente, os valores são o que consideramos de mais importante na hora de agir, elementos da nossa conduta dos quais não aceitamos abrir mão, não aceitamos prescindir.
Gostaria de chamar aqui a atenção do leitor para essa relação privilegiada entre aquilo que nós forçamos a respeitar de um lado e aquilo que consideramos mais importante de outro lado. Espero que o leitor perceba a relevância desta relação. Afinal de contas, é porque consideramos alguma coisa importante em nossa vida prática que faremos disso uma referência de moralidade, um princípio que respeitamos mesmo nas situações em que respeitá-lo implica perda.
Há, portanto, uma relação óbvia e intuitiva entre o que acreditamos que seja o mais importante para nós, de um lado, e aquilo que acreditamos que seja obrigatório na nossa conduta de outro lado. Sem considerar esta relação, fica comprometido o entendimento do utilitarismo como filosofia moral.
John Stuart Mill, representante maior deste pensamento, destaca dois tipos de valor. O primeiro deles é o que poderíamos chamar de valor instrumental. Por que denominá-lo assim? Porque a avaliação de quanto vale qualquer coisa dependeria do quanto ela nos permite obter outra que desejamos. Só esta última, uma vez alcançada, consagra seu valor.
Um exemplo clássico de valor instrumental é o dinheiro, que por si só nada vale, mas vale na medida em que permite ter outras coisas. Assim imagine uma nota de cem reais. Ela é um pedaço de papel um pouco azulado cujo valor depende daquilo que a quantia permite adquirir. Daí a sua perspectiva instrumental.
Imaginemos que uma nota de cem reais me permita ir ao cinema, comprar uma lasanha e uma revista. Não sei se estou sendo otimista. Depende um pouco de onde você vai comer essa lasanha. Então, fica evidente que o valor da nota de cem reais depende dessas coisas que ela permite adquirir. Trata-se de um valor derivado, a mercê da possibilidade de fazer alcançar outros bens.
Uma farmácia é um verdadeiro banco de valor instrumental. Serve para garantir estados corporais que queremos e evitar os que não queremos. Um comprimido azul materializa seu valor instrumental a cada penetração por ele assegurada. Outro para dor de cabeça tem seu valor instrumental condicionado pela eliminação efetiva da dor. Um colírio só vale enquanto instrumento se diminuir o desconforto ocular causado pela secura do ar ou pela poluição. E os produtos anticaspa, antiqueda, anti-hemorroidal, antirreumáticos só terão valor instrumental se conseguirem afastar de nós todos esses males. Anticoncepcionais, porque ainda não é o momento. Ou já foi vivido.
Ainda seguindo a lição de Stuart Mill, vamos chamar o outro tipo de valor de intrínseco. É o valor de tudo que vale por si mesmo, inerente às próprias coisas. Coisas, portanto, que se materializam como valor independente de outras. Sem instrumentalidade. Para falar como Aristóteles, coisas de valor intrínseco são fins em si mesmos.
Quando um filósofo moral propõe uma teoria do valor, a discussão sobre as coisas de valor intrínseco constitui sua parte mais nobre. Porque, quase sempre, são essas coisas de valor intrínseco que servirão de referência para as obrigações morais que deliberamos respeitar. Assim poderíamos pensar em direitos fundamentais da pessoa humana, no direito de permanecer vivo, na liberdade de expressão etc. Valem por si mesmos? Ou são também meros instrumentos para coisas ainda maiores?