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Intervenção 4 Júlio
Intervenção 4
Júlio
Realmente, as ideias que comumente se fazem de felicidade estão mais próximas de Mill do que de Aristóteles. Mas com relação à ausência de dor e prazer, este último apresenta um interessante raciocínio em sua obra intitulada Anima ou, se preferirem, Alma. Ele propõe uma espécie de relação entre o desejo, a falta dolorosa de algo no corpo, com a fruição ou prazer. Somos capazes de desejar muitas coisas, nem sempre coisas que faltam ao corpo. Na falta de água, sentimos sede, desejo de água. Sem água, perecemos. Água é desejo de algo que falta ao corpo.
Mas não apenas para água nossos desejos são direcionados. Desejamos carrões, férias em paraísos caribenhos e geleia de figos com nozes. Nada disso é essencial ao corpo, mas ainda assim nos falta para que o desejemos. De onde vem então essa falta, essa necessidade de coisas das quais o corpo não precisa para continuar existindo? Para Aristóteles, elas vêm da experiência. Da memória ou da expectativa de momentos felizes. Desejamos a alegria que imaginamos que nos proporcionará alguma coisa, e não essa coisa, considerada nela mesma. Assim, temos um ciclo que começa com algum tipo de prazer ou fruição de algo, depois experimenta-se a falta da boa sensação causada pela relação estabelecida com essa coisa, para em seguida haver nova fruição.
Aristóteles acredita que essa dor do desejo é, em parte, o que causa a fruição. Alegria pelo fim do sofrimento por não se ter algo. Como no dito popular, a fome é o melhor tempero. Em resumo, não haveria para Aristóteles fruição sem a dor da falta, sem o desejo, de maneira que a redução da dor e a alegria do prazer não poderiam ser considerados de forma independente um do outro.