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Intervenção 11 Clóvis
Intervenção 11
Clóvis
Bem, Júlio, sugiro então consultarmos Kant. Leitor de Rousseau. Autor do Discurso sobre a origem e o fundamento da desigualdade entre os homens. Leitura obrigatória. Nele, o filósofo explica que um gato vive ao longo de toda a sua vida, a cada segundo, controlado por seu instinto de gato, como se nascesse com um programa de gato. Um jeito felino de viver do qual ele não escaparia um único segundo. Logo, todas as condutas do gato estariam previstas por seu instinto. Ele tem resposta ao nascer para todas as situações de uma vida de gato. Por isso, explica Rousseau, o gato morrerá de fome, mas não comerá um prato de cereais. Pois não está programado para isso. E o pombo, por sua vez, não comerá filé pela mesma razão.
Ora, o importante na lição de Rousseau é perceber que 100% das vidas do gato e do pombo são regidos pelo instinto. Portanto, não há liberdade em relação ao instinto. Não há descolamento em relação ao instinto. Dessa maneira, um pássaro só é livre para voar na poesia, porque na sua vida ele é escravo do voo, incapaz de escolher outra alternativa. Rousseau então dirá que no caso do homem esse instinto não dá conta das necessidades da vida. Para nós, o instinto é insuficiente. Basta olhar um recém-nascido na maternidade e a fragilidade salta aos olhos. O mesmo não acontece com uma tartaruga que sai do ovo e é engolida pela primeira onda. Ela tartarugueia segundos depois de nascer.
No nosso caso haverá uma competência que vai além do instinto. Para sobreviver, o homem é convidado a transcender a própria natureza, o que lhe permite fazer escolhas. Ele inventa, cria, improvisa, inova, empreende. Inclusive intervém sobre a própria natureza, como no caso de homens que viram mulheres e vice-versa. Assim podemos dizer que existe uma parte do homem que funciona regida pela natureza em relação à qual ele não tem transcendência, que é o sangue que circula, o ar que respira, o intestino que peristalta, e existe uma parte da vida do homem que resulta das suas escolhas e decisões. Nesse momento, o homem se descola da natureza. Ou seja, é facultado a ele soberanamente agir ou não de acordo com suas pulsões, inclinações e apetites. É exatamente essa faculdade de refletir sobre as próprias pulsões no sentido de decidir a vida a partir de deveres que Rousseau vai chamar de vontade, termo depois reaproveitado por Kant.
Então, parte da vida roda na mão da natureza e outra parte roda na mão da vontade. Parte da vida escapa às escolhas e outra parte resulta delas. E, portanto, diante desse quadro, a bela frase de Rousseau esclarece: “No homem a vontade fala ainda quando a natureza se cala.” Existem situações para as quais a natureza não tem resposta e o homem reflete encontrando uma saída. Poderíamos então identificar aí dois tipos de valor. Afinal de contas, o seu intestino funciona enquanto você pensa em outra coisa e, nesse caso, o valor é de funcionalidade peristáltica, à moda grega. Mas quanto ao valor das escolhas, das opções, das decisões e das deliberações, que resulta da liberdade, inerente ao poder de decidir, o valor próprio da vontade, é evidente que nenhum leitor o confundiria com a maior ou menor eficiência do sistema excretor. Um com o outro. O intestino vale quando funciona bem, e vale muito, sobretudo para quem tem prisão de ventre. Mas o valor de uma tomada de decisão, de uma escolha, de uma trajetória de vida deliberada é outra coisa.