Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 72 de 89

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Intervenção 9 Clóvis

Intervenção 9

Clóvis

 

Sua intervenção é perfeita. E “antenada”. Apresentadas as críticas ao hedonismo e suas contestações, vale a pena apontar algumas ponderações críticas à perspectiva consequencialista da teoria de valores de Mill. Denominamos consequencialista porque o valor de qualquer conduta ou questão moral, bem como o valor de qualquer coisa para o homem, dependerá de uma consequência, de um efeito, de um resultado de utilidade sobre este homem.

Em outras palavras, o valor de uma conduta humana não está na intenção de quem age, nem mesmo no seu gesto, mas sim na eventual felicidade que proporciona a todos por ela afetados. O valor de uma coisa também depende do tipo de efeito que esta coisa produz enquanto eventual gerador de felicidade a quem com ela se relaciona, de quem ela se serve. Isto significa que, para sabermos o valor de qualquer coisa, temos que esperar, ver o que acontece, os efeitos que enseja, as consequências que acarreta. Portanto, o valor de qualquer realidade está fora dela, no tipo de afeto produzido por ela.

Ora, a primeira dificuldade é que qualquer coisa ou conduta humana em contato com várias pessoas poderá ensejar afetos distintos – felicidade para uns e infelicidade para outros; prazer para uns e dor para outros; deleite para uns e nojo para outros. Assim é o valor de uma salada de quiabo, de uma pessoa nua de proporções exageradas, de uma canção. Poderá ensejar afetos contraditórios em quem as contemple, em quem com elas se relacione.

Isso nos obrigaria a aceitar que uma mesma coisa ou conduta possa ter diferentes valores, possa ser ao mesmo tempo boa ou ruim. Ter valor ao mesmo tempo positivo e negativo. Dizemos que o valor é relativo à felicidade que enseja e, portanto, às pessoas a serem afetadas.