Somos Todos Canalhas
Intervenção 1 Júlio
Intervenção 1
Júlio
O passado é só memória; o futuro, só expectativa. Na existência há uma única dimensão de tempo: o presente, o instante, o agora, o já. Se há um “eu”, esse “eu” existe agora. Mas existe agora com os afetos deste instante. E neste instante com a memória de vidas vividas. E também com a expectativa de vidas por viver. Somos os três. Não que haja necessariamente três dimensões físicas de tempo. Mas aqui, agora, neste instante, há sensações, memórias e expectativas. Por um lado, quando nos cobram fidelidade, exigem de nós a obediência a normas e convenções baseadas na memória que outros possuem de nós. E, portanto, aquele que conhece uma moça, xaveca; a xavecada é bem-sucedida, e de xaveco em xaveco eles ganham intimidade. Jantam juntos. Depois rumam para um lugar mais reservado. Ocorre a cópula. Há de se esperar que na manhã seguinte não seja mais necessário passar por todas as etapas da conquista – da primeira xavecada à cópula. Há de se esperar que nessa relação as pessoas tenham alguma segurança para partir do já vivido, da memória do dia anterior. Se o rapaz liga para a moça e ela diz “não te conheço. Você hoje é outro. Eu hoje sou outra. Nunca te vi na vida. Você é louco. Não me telefone mais!”, então essa expectativa não foi correspondida, o que gera uma frustração que pode ser tida como infidelidade à memória que se possui da outra pessoa. Mas esta não deixa de ser uma forma estranha, porque o passado, que é a minha memória nesse instante, pode não corresponder à memória que outra pessoa tem de mim nesse mesmo instante.
Os meus amigos do segundo grau – na época em que eu estudei se chamava assim – fazem encontros a cada década. São pessoas que não se veem nem se falam por dez anos e de repente se reúnem. E há muita frustração no encontro. Porque as pessoas vão com a expectativa de que encontrarão ali aquele sujeito de dez anos atrás. Vão com a expectativa de que retomarão aqueles relacionamentos de amizade do mesmo ponto em que foram interrompidos dez anos antes. E contam histórias de dez anos atrás. Histórias nas quais figuro como personagem, mas das quais sou capaz de jurar que nunca participei. A memória deles não é igual à minha. Eles não me parecem os mesmos de uma década atrás. São outras pessoas. O encontro é muito estranho. Quando as pessoas têm memórias diferentes de nós, nutrem expectativas diferentes sobre como vamos nos relacionar. E quando não correspondemos a essas expectativas, somos de certo modo acusados de infidelidade – uma infidelidade que seria difícil evitar. Requereria que todos nós fôssemos capazes de ter uma objetividade de conteúdo de memória; que as memórias fossem iguais; que nos lembrássemos das mesmas coisas; que tivéssemos atribuído no passado os mesmos significados e os mesmos valores àqueles instantes e que fôssemos todos plenamente capazes de retomar exatamente do mesmo ponto outrora vivido ao mesmo estado de espírito.
Há outro lado também curioso. Às vezes, somos cobrados e nos cobramos a partir daquilo que fomos um dia. É a cobrança de uma espécie de coerência para com nossa trajetória histórica. E, portanto, alguém que é heterossexual e vascaíno, se no dia seguinte aparece no serviço com outro nome, agora Shirley, outro time de futebol e diz “mudei, agora sou outra”, os amigos lhe cobrarão fidelidade para com sua trajetória. Eles vão censurá-lo por esta traição, esta infidelidade à imagem de si mesmo. Caçoarão e exercerão outros tantos tipos de censura social. Perceba que, ao trair a sua história, as expectativas e a memória, ele poderia ser fiel ao “eu” de hoje, ao “eu” do instante. Se só existimos no instante e os instantes são sempre inéditos, não respeitarmos as memórias, em especial as memórias alheias, pode ser frustrante para os outros. Por outro lado, pode ser entendido como fidelidade a nós mesmos. Muitas vezes, a ideia de fidelidade a nós mesmos, como uma correspondência aos afetos do “eu” deste instante, pode configurar uma traição ao “eu” de uma trajetória histórica, ao “eu” da memória. E vice-versa.
Para manter a coerência histórica, para agirmos de maneira a não frustrarmos a imagem que fazem de nós e não sofrermos as consequências sociais dessa frustração da imagem que fazem de nós, cedemos. E quando o instante é triste, nós rimos, porque o que esperam de nós é a alegria. E no instante em que somos afetados de alegria, choramos, porque aquilo que esperam de nós é a tristeza. E assim os outros nos aplaudem pela fidelidade identitária enquanto traímos os nossos afetos. Traímos o “eu” do instante.