Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 89 de 89

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Somos Todos Canalhas

Intervenção 5 Júlio

Intervenção 5

Júlio

 

Podemos falar de respeito e tolerância num sentido mais propriamente político, em que respeito é submissão e tolerância é aceitar o outro, mas manifestando sua diferença, também uma espécie do gênero respeito. Um tipo de submissão, mas uma submissão na qual aquele que se submete não se anula completamente diante da norma, e sim mantém a manifestação de sua autonomia intelectiva e afetiva. Mas podemos falar também de tolerância e respeito num sentido social ou relacional. O que diferencia um do outro é que neste último caso não falamos de respeito e tolerância a partir das relações de poder, mas a partir de escolhas morais. Não há, portanto, um constrangimento que exija a aderência a uma norma que determine o que é manter-se diferente e tolerar ou que diga quais são os limites do exercício da tolerância, como, por exemplo, num debate em que se afirma: “Pode discordar, mas não gritar. Pode deixar clara sua diferença, mas não bater no coleguinha com quem se discute.” Aqui, num sentido propriamente moral, respeito é aceitar o outro tal qual ele é. E às vezes não querer sequer manifestar suas discordâncias ou diferenças. Pois não há a menor pretensão do respeito de que o outro mude para agradá-lo. Aceita-se o outro tal qual ele é. E da mesma maneira a tolerância, na qual você também aceita o outro tal qual ele é, mas manifesta a sua diferença. Deixa claro que para você as coisas não são assim.

Pensando em respeito e tolerância por um viés político, se olharmos para a ideia de Estado moderno, é possível perceber que até o século XIX o ideal de cidadão era baseado quase exclusivamente na ideia de respeito. O que se exigia das pessoas, portanto, era submissão, reconhecimento de regras às quais todos deveriam se submeter, e diante das quais toda e qualquer manifestação de diferença, de insatisfação, de descontentamento era tida como algo ruim. E esse Estado moderno inventa coisas como a educação universal, uma forma de fazer com que todos falassem a mesma língua, conhecessem as mesmas regras, comungassem dos mesmos valores e assim estabelecessem as condições de possibilidade para um sistema político e social baseado quase exclusivamente no respeito. Para que eu respeite é preciso que exista grande conformidade de normas, como deixou claro o professor Clóvis. É preciso que haja a pretensão de uma espécie de objetividade do valor e do significado das coisas, assim como certo tipo de educação promovida por uma série de instituições. Junto com o respeito como princípio fundamental da organização política e social, haveria também um viés autoritário, intolerante, um viés de não aceitação da diversidade e da diferença.

A forma de organização social e política do Estado contemporâneo, ao contrário, baseia-se menos no respeito e mais na tolerância – menos na ideia da existência a partir de um modelo e mais na aceitação de que existem múltiplas formas de convivência e que não precisamos, dentre as múltiplas formas possíveis de existência, escolher uma, elegê-la como a melhor e descartar todas as outras. É possível existir várias formas de existência, várias formas diferentes de se viver e ainda assim todos nós conseguirmos compartilhar a existência com pessoas diferentes. A tolerância torna-se um valor mais significativo do que o respeito.

E não falta quem tenha dificuldade com essas duas perspectivas, ainda que não sejam novidade – Platão, por exemplo, que pressupunha a existência de um gabarito da existência. Pois havia também um gabarito para a existência política, um único modo correto de existir, um modo ideal de organizar a nossa convivência. E por isso a política podia ser posta em juízos de fato. As pessoas poderiam discutir a verdade da política e, uma vez descoberta a verdade, respeitá-la. Ou então, por ignorância ou pela atitude moral do desrespeito, não acatá-la. Virar as costas à verdade. Mas Aristóteles, na Retórica, dizia que o saber sobre a política é diferente do saber relativo às ciências da natureza. Estas produzem juízos de fato. Dizem A é B. Mas na política é diferente. Se temos uma praça, por exemplo, e queremos pintá-la, um grupo dirá que é melhor pintar de amarelo. Outro dirá que é melhor pintar de vermelho. Ficará muito mais alegre – o amarelo é feio. O que seria do brega sem o amarelo? Um terceiro grupo refutará o vermelho por considerá-lo agressivo, por demais excitante. Melhor pintar de azul porque a praça deve ser lugar de paz. E aí vem a pergunta: dentre essas três propostas, qual delas é a verdadeira e quais delas são falsas? O que é verdadeiro em termos de cor de praça? Veja que a pergunta não faz o menor sentido. Não há aqui verdadeiro ou falso. Há melhor e pior. Adequado e inadequado. Política, portanto, trabalha com esse tipo de juízo de valor. O adequado e o inadequado. E quando eu aceito que a política não seja baseada numa verdade da existência, num valor único da existência, num gabarito a partir do qual todas as outras existências estão em conformidade ou em desconformidade com o gabarito, mas, ao contrário, aceito que existem várias formas de existência, todas elas podem parecer igualmente valorosas. O que temos nesse caso é um ambiente em que, ao aceitarmos a diferença e a diversidade, aparece a tolerância como princípio de organização política e social.

Falo aqui de política, de relação, mas a carapuça cai muito bem no mundo do trabalho. Há quem organize as relações dentro de uma empresa baseando-se muito mais no valor respeito do que no valor tolerância, o que significa um ambiente de trabalho hierarquizado, em que aquele do andar de baixo não é pago para pensar, e sim para obedecer, sem reclamar. E se um funcionário pensa e assume uma atitude, faz algo diferente, ou até mesmo se assume a atitude, mas ainda assim não faz nada de diferente, é visto como ruim, ser discrepante, ser que deve ser eliminado, cuja existência ameaça a ordem da empresa. Outras fazem diferente – aceitam que as pessoas sejam diferentes. Aceitam o trabalhador que simplesmente tolera o trabalho, que não gosta do que faz, e que deixa claro que detesta sua ocupação. Ele diz por que a detesta, mas mesmo detestando trabalha. Mesmo achando idiota obedece a regra. E não é mandado embora por isso. É até ouvido. Sente que tem um ambiente de tolerância que lhe permite manifestar-se como ser que desgosta do ambiente no qual se encontra. Alguns ambientes são mais libertários, outros, menos. Uns são mais tolerantes, outros, menos.

Nem conclusão

nem considerações finais

 

Porque não concluímos nem finalizamos. Quando o assunto é valores, não há que ter esta pretensão.

Todo homem delibera sobre sua trajetória pessoal. Projeta situações desejadas, decide sobre meios adequados, descarta outros e age. Intervém no mundo transformando-o ininterruptamente. Neste, só há o real e sua indubitável necessidade. As coisas são só o que são. Mas pela mente passam muitas coisas. Sobre o que aconteceu e acontece, mas também sobre o que poderia ter acontecido e sobre o que poderá acontecer. Na imaginação, o homem multiplica a realidade. E isso permite escolhas. Do plural em direção ao singular. Das múltiplas possibilidades a uma única ação. Escolhas que requerem critérios, fundamentos.

Para conviver não é muito diferente. Dois ou muitos mais estão sempre pensando sobre a melhor forma de conviver. Inteligência coletiva a serviço do aperfeiçoamento da convivência. Porque muito embora as coisas da sociedade pareçam às vezes muito estáveis, o fato é que nada que diga respeito à interação entre as pessoas precisa ser do jeito que é. O coletivo delibera sobre situações inéditas e cogita sobre as melhores condutas, sempre entre muitas possibilidades. A ética é essa busca intersubjetiva da melhor convivência. Porque não faz muito tempo fumávamos dentro das aeronaves.

A ética só se traduz em problema quando pretensões particulares colocam em risco a convivência. Condutas e estratégias que supostamente trarão vantagens para um ou outro dos integrantes daquela sociedade acabam prejudicando o convívio de todos. Na vida do casal, na república de estudantes, no pagamento do meio ingresso mediante apresentação de documento, na pressa no trânsito e o desrespeito das sinalizações, na licitação para compra de material hospitalar ou escolar ou em qualquer outra situação de convivência.

Sempre alguém poderá pretender – com consciência disso – fazer prevalecer o próprio interesse particular em detrimento da convivência, em detrimento do outro. Um outro conhecido, como no caso da esposa ou do colega de república, ou um outro genérico, como o usuário vindouro do vaso sanitário num banheiro de rodoviária. Incapaz de abrir mão, de transcender o próprio umbigo, o próprio prazer, glória ou reconhecimento. Alguém que persegue metas e resultados a qualquer preço, com sangue nos olhos e faca nos dentes, num cio eterno. Sem valores, confunde esterco com marrom glacê. Acumulador convicto, afoga-se no acúmulo. Oscila entre a frustração pela riqueza do outro e o medo de perder o fruto de sua indignidade. Este é o canalha, que, reunido com outros em bandos, constitui o público-alvo deste livro.

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