Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 30 de 89

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Intervenção 3 Clóvis

Intervenção 3

Clóvis

 

O abestado, o monstruoso, o fraco, o raquítico, o deficiente. Graças ao pensamento cristão, todos esses passam a ter a mesma dignidade que o forte, o belo, o extremamente inteligente, o competente, o astucioso, o deslumbrante. Hoje isso nos parece óbvio, não é mesmo, Júlio? Mas, se pudéssemos de fato conceber como era a vida e a convivência entre os gregos, poderíamos entender melhor as dimensões desta revolução intelectual.

O pensamento cristão inaugura a ideia de igualdade. Uma igualdade que não é de fato, porque de fato somos desiguais. Mas uma igualdade que é de direito. E é fundamental que você entenda o porquê da aparição da ideia de igualdade neste momento – ela, que também nos parece, hoje, uma evidência. Evidência que nos levaria a pensar que sempre pensamos assim. Mas é preciso deixar claro que a igualdade de direito entre todos, esta que é igualmente moral e jurídica, tem dia e hora para aparecer no cenário das reflexões do homem. É uma igualdade que decorre do descolamento da ética e da política face à natureza. Logo, a desigualdade fica limitada ou confinada aos recursos naturais.

Mas uma vez aceito que a dignidade moral tem a ver com a maneira como deliberamos sobre a própria conduta, a maneira como decidimos agir e a maneira como agimos efetivamente em função de uma decisão tomada, fica claro que todos nós começamos do zero. Você pode ter inteligência 30, e eu, 5. Mas a partir de agora o valor moral de nossas vidas e de nossas condutas dependerá do que você fará com os 30 e do que eu farei com os 5. Dependerá do que decidirmos fazer com nossos recursos.

Estamos nesse momento em igualdade. Sou tão livre quanto você para decidir o que fazer com o que disponho como recurso, livre para deliberar sobre minhas próprias potencialidades. Assim, você poderá ter infinitamente mais possibilidades de ação e de intervenção sobre o mundo, mas a liberdade que temos de decidir o que fazer com os nossos recursos é a mesma para ambos. E é exatamente daí que tiramos a igualdade. No momento em que o valor da conduta depende da liberdade da decisão sobre a própria conduta, passa-se uma régua que reconduz a zero as abissais diferenças de natureza entre os agentes.