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Intervenção 10 Clóvis
Intervenção 10
Clóvis
Excelente imagem, a da bússola moral, uma vez que o mundo moderno não é mais como pensavam os antigos, em ordem, harmonia e eternidade, constituído por partes com finalidades específicas e complementares. Pelo contrário. Tudo que há dentro dele está à deriva, ao sabor de uma dinâmica sem destino algum. Uma bagunça de deslocamentos e choques, de energia que atravessa corpos viventes, de relações e impactos, de devir e deixar de ser na contingência de encontros que se impõem. E tudo isso sem nenhuma finalidade ou projeto, nenhum funcionamento, nenhuma parte constitutiva com papéis a desempenhar. Abandonamos, assim, a ideia de um mundo fechado, circular, hierarquizado, ordenado e finalista para um mundo desprovido de centro, de circunferência, de hierarquia, de ordem e sem nenhuma finalidade.
A leitura do livro do filósofo e historiador francês Alexandre Koyré, Do mundo fechado ao universo infinito, mostra em detalhe a mudança de paradigma, a substituição de uma visão de mundo por outra – a revolução completa de perspectiva que significou a passagem do universo de Aristóteles para o de Newton.
Substitui-se um mundo onde cada lugar, cada posição e cada agente tem o seu valor em função de sua própria natureza, onde os lugares se situam uns em relação aos outros de maneira absoluta, isto é, independendo de pontos de vista de quem os observa. E assim a compreensão do valor de cada parte, de cada lugar, de cada posição e de cada ocupante desta implica o prévio entendimento do funcionamento do todo e a efetiva participação de cada parte neste funcionamento.
O pensamento moderno substituirá este mundo circunférico, fechado e hierarquizado por um mundo infinito. E no momento em que o mundo se torna infinito, ele desaparece como referência.
Não há como se situar em relação ao resto, muito menos em relação ao todo. Imagine uma sala de cinema. Você compra ingresso com cadeira marcada, que lhe permite se encontrar por meio de letras e números. Você está na quarta fileira a contar a partir da tela, fixada na parede da sala – portanto, uma referência útil para você contar as quatro fileiras. Sua cadeira fica a cinco colunas do corredor, que serve de referência para as colunas. Sendo assim, a partir da tela você anda quatro e, a partir do corredor, cinco. Finalmente, toma seu assento. Mas só consegue fazê-lo por causa da tela e do corredor – balizas indispensáveis para se situar na sala de cinema.
Agora imagine uma sala de cinema sem fim, com cadeiras para frente e para trás sem a fileira A e a coluna 1, sem lugar para a tela. Uma sala sem parede, sem corredor. Todos servem de começo e são incompatíveis com o infinito. Neste caso, admita, não há como localizar sua cadeira. Como achar a quarta fileira sem a primeira? O mesmo para as colunas. Se o mundo é infinito ele não indica mais nenhuma posição. Fica sem sentido cogitar um lugar natural. Assim é o novo universo moderno de Newton.
O professor Júlio Pompeu dirá: “Mas eu moro em Vitória, no Espírito Santo, no Brasil, na América do Sul, no planeta Terra. Não estou tão perdido assim.” Continuemos então. Você está no planeta Terra, no sistema solar, na Via Láctea. E esta última parece ser uma coisinha insignificante, um grão de areia, cuja posição ignoramos a não ser em relação a outro grão de areia que também muda o tempo todo de lugar. E aí vem a pergunta: se você não sabe onde a Via Láctea está, como saber a posição de tudo que fica dentro dela? Tudo se desloca, portanto, do nada para lugar nenhum. Sem posição. Pois é. A essa altura, você deve ter percebido que todos aqueles posicionamentos anteriores flutuam do nada para lugar nenhum. Simplesmente não há como se situar.
Ora, se o valor das coisas tinha a ver, para os antigos, com a posição ocupada dentro de uma ordem hierárquica de valores, desaparecendo a ordem hierárquica, todos os lugares se equivalem. E desaparecendo a distinção desaparecem os valores. Assim você é obrigado a admitir que para atribuir valor às coisas o universo não serve mais de referência. Porque se antes as coisas valiam em função da participação no cosmos, com o seu desaparecimento, não há do que fazer parte. Ficamos, portanto, sem critério.
Nesse momento, vale a pena lembrar as lições de geometria analítica do ensino médio. Descartes ensina: para situar qualquer coisa como um ponto P precisamos nós mesmos criar referências. Preciso eu mesmo dispor dois eixos perpendiculares entre si, definir uma referência vertical e outra horizontal, coordenadas cartesianas que se cruzam no ponto zero formando um ângulo de 90 graus e tendem ao infinito. Só a partir destas coordenadas aceitas por todos é que o ponto P se situará.
Assim, toda concordância em relação à posição de um ponto, indispensável para marcar um encontro, por exemplo, supõe um acordo anterior sobre as referências que permitem esta posição. Não poderia ser diferente. Sendo o universo infinito, nada os detêm. Portanto, o posicionamento de qualquer coisa no novo universo de Newton pressupõe que definamos nós mesmos em relação a quê situar as coisas. Nós mesmos definiremos as referências a partir das quais uma coisa está mais para a direita, mais para a esquerda, mais para cima, mais para baixo etc.
Ora, se isso é assim para o posicionamento das coisas, com maior razão seria para o posicionamento das pessoas, para a definição de suas atividades, condutas e também de seus valores. Afinal de contas, se antes tudo era necessariamente compartilhado pela referência única do cosmos aceita por todos – tudo o que ele continha como referência fazia unanimidade –, agora, com seu desaparecimento, é preciso colocar alguma coisa no lugar.
Mas veja a dificuldade: o cosmos era um dado universal que se impunha a todos os homens. Já nascíamos nele. Daí a sua legitimidade para definir os lugares naturais, onde e como deveríamos viver. Um guia de vida e convivência que se impunha com facilidade a todos. Indiscutível. Definido por uma instância superior. Mas tudo isso dançou.
Agora, nós mesmos definiremos as referências. Assumimos o lugar de Zeus. Portanto, os valores éticos passam a depender de um entendimento que consiga se impor, ser aceito com facilidade por todos, que tenha legitimidade e seja respeitado, de modo que a convivência seja viável. Mas a primeira coisa que vem à cabeça do leitor é: temos interesses, pretensões, desejos, apetites e gostos que não se harmonizam com facilidade. São excludentes. Daí o conflito. A guerra de todos contra todos. Como definir referências aceitas por todos?