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Intervenção 11 Clóvis
Intervenção 11
Clóvis
Pergunta fundamental, Júlio. Como Aristóteles realizaria essa passagem de suas hipóteses sobre o deslocamento dos corpos às suas reflexões sobre ética e política? A preocupação com a coerência entre as distintas partes de um edifício filosófico é marca registrada de todo grande pensador. Neste caso, a correspondência é imediata. Da mesma maneira que uma pedra se desloca animada por sua natureza em direção ao seu lugar natural, o homem também o faz. Ou seja, dispondo destes dois elementos – a sua própria natureza e o seu lugar natural –, o homem se desloca, age e interage com as coisas e com outras pessoas.
Tal como o deslocamento de uma pedra, esta ação do homem deve procurar, em observância às características da natureza do agente, a harmonia com o resto do cosmos, encontrando, assim, o próprio lugar. Então, da mesma maneira que a natureza da pedra, tratando-se de um corpo pesado, indica o lugar para onde ela deve se deslocar, a natureza do homem – suas características e recursos naturais –, deve indicar para onde ele deve se deslocar. Ou seja, em que sentido deve agir, em que direção deve esforçar-se para estar.
Aristóteles concebe uma teoria de valor segundo uma escala hierarquizada. Onde cada pessoa ou grupo de pessoas deve evitar agir e estar em função das qualidades mais ou menos importantes da sua própria natureza e, portanto, ao papel ou finalidade mais ou menos nobre que convém a este indivíduo na ordem cósmica. Nesse sentido, falar de valor na vida social implica reconhecer os próprios recursos naturais, suas características, sua extensão e o tipo de finalidade a cumprir no universo.
Logo, aqueles mais dotados de recursos naturais serão levados a cumprir papéis ou finalidades mais relevantes no universo. São, portanto, indivíduos superiores. Entenda que estamos falando aqui do valor das pessoas. Já daqueles de recursos naturais mais acanhados podemos esperar desempenhos menos notáveis. Cabe-lhes, portanto, papel ou finalidade menos nobre. São indivíduos inferiores no que tange à vida social, à vida na pólis, aos direitos, às obrigações, às competências para tomar decisões e assim por diante.
Essa superioridade dada pela natureza está na base da forma aristocrática de enxergar a vida do homem e suas relações com seus semelhantes, o que inspirou fortemente a maneira de o homem se organizar e interagir ao longo da história. A título de exemplo, o sistema feudal que surge logo após as invasões bárbaras ao império romano, determinando sua descentralização, fragmentação, seu despedaçamento, estará fundado numa visão aristocrática do homem, num entendimento de superioridade determinado por um tipo de virtude que nada mais é que a consagração de certas características de natureza em detrimento de outras. Intervenção 11